O pesadelo dos geeks

Mais uma noite no Baixo Gávea jogando conversa fora. Estávamos esperando o Beto, que sempre atrasava.
– Acho que aquelas meninas estão olhando pra cá.
O aviso do Antonio me pegou de surpresa. Como todos sabem a kriptonita dos geeks é o sexo oposto. Na verdade fomos promovidos a geeks depois, ainda éramos nerds, mas o ponto fraco dos dois grupos é o mesmo. A questão era que aquilo que faria a alegria de qualquer frequentador de bar, mulheres-dando-mole, para nós era uma preocupação grave. Sabíamos o que tínhamos que fazer, vontade não faltava, o nosso problema era como fazer.
– Elas continuam olhando.
A mesa delas estava atrás de mim, no canto. Fiz aquele teatrinho de quem procura o garçom para poder virar de maneira discreta. Elas eram lindas, o que só tornava mais complicada a situação. Teríamos que tomar alguma atitude. Se fossemos espertos e espontâneos bastava ir lá, sentar na mesa delas e falar qualquer coisa. Mas espertos era algo que definitivamente não éramos, ao menos não no sentido ortodoxo da palavra. E até o Robocop era mais espontâneo e extrovertido que nós. Como todo nerd que se preze começamos a preparar uma estratégia, um plano de ação.
– A gente tem que pensar algo sagaz para falar, algo que faça elas perceberem de imediato o quanto somos geniais.
– Não somos geniais e pelo nosso padrão não gaguejar já merece prêmio.
– Deixa de ser mané, você nunca chegou numa menina antes?
– Não. E nem você.
Uma triste verdade. Éramos tímidos crônicos, assim como o Beto. Por isso ele demorava a aparecer. Tinha horror ao Baixo Gávea, a qualquer lugar cheio de gente. Pior que ele só o Plínio, um übernerd campeão de xadrez, não por acaso também nosso amigo. Ao menos esse conseguia ganhar alguma coisa, ainda que fosse torneio de xadrez. A existência do Plínio nos consolava, não éramos o fundo do poço. Jogar xadrez à sério sim é que era o fim, nerdice tinha limite. Mesmo sendo mais normais do que o Plínio a nossa vida afetiva dependia da iniciativa do lado de lá. E da paciência também. As moças ali no BG já tinham feito sua parte naquela noite. Agora, na teoria, era com a gente. Precisávamos de um approach matador, mas  para um nerd é mais fácil mandar um foguete para a lua do que se aproximar de uma mulher. Tínhamos que estudar cada passo a ser dado.
– Vamos falar de quê? Cinema iraniano? Vinhos da Califórnia? O feminino na obra do Chico Buarque?
– Com essa conversa vamos parecer Chiquinho Scarpa e Jorginho Guinle dando um rolé juntos. Só vai faltar o blazer azul marinho com brasão e o foulard. O Braseiro ainda não é a confeitaria Colombo.
– Só temos referências ultrapassadas, a gente já nasceu velho. Corre lá na banca e compra alguma revista de moda & comportamento, dessas que mandam a gente vestir isso e falar daquilo.
– Agora não dá tempo. Vamos ter que improvisar. Já vimos mais de um milhão de filmes onde tem um cara chegando numa menina, não dá pra lembrar de nada?
– Só lembro de Sexta feira 13. Jason Vorhees resolvia isso em dois segundos.
– É por isso que você vive sozinho. Não tem dimmer. Passa direto de nerd tímido para serial killer.
– Ah é, malandrão, cadê o seu harém?
– Fica quieto que o que é do homem o bicho não come, ao menos dessa vez. Hoje não vai ter pra ninguém, hoje é o nosso dia. Internaliza isso! Vai ser a vingança dos nerds. O que a gente precisa fazer é chegar de uma maneira diferente, sofisticada mas ao mesmo tempo displicente. Não temos beleza nem barriga tanquinho, temos que compensar com inteligência.
– Do jeito que tá a minha pança nem sendo o Stephen Hawking ia compensar.
– Podemos ir lá com uma conversa de que conhece elas de algum lugar. Essa é clássica, vi num filme de 007, acho que na época do Sean Connery.
– O agente 007 é a sua cara! Você poderia ser um agente secreto, só que do Vale do Silício, “007 contra os surfistas irados”, esse ia ser o título do seu filme.  Aliás, essa conversa “a gente não se conhece de algum lugar” é bem idiota e gasta né?
– O importante é enfiar o pé na porta. É o que todo mundo diz, já li vários artigos sobre isso na Internet. O plano é o seguinte: você vai lá primeiro, fala um bobagem, como é do seu feitio, e eu chego logo depois, com um comentário sarcástico e inteligente, salvando a situação.
– Normalmente os seus comentários costumam enterrar a situação e não o contrário. Vamos os dois juntos. A gente senta na mesa delas e seja o que Deus quiser.
– Sou ateu, Deus não quer nada comigo. Melhor planejar. Se deixar por conta do divino vai ser o fracasso de sempre.
– É inacreditável que você seja fotógrafo. Na ficção fotógrafo é sempre um cara safo, esperto, sedutor. O sindicato nunca quis te expulsar? Você é uma vergonha para a categoria.
– Entrei na fotografia pelo sistema de cotas. E no mais você é um designer que tem cara de analista de sistemas, ou melhor, de vendedor da Jopar do Largo do Machado.
E o debate não terminava. Muitas possibilidades para serem analisadas, muitas opções e principalmente muito medo dar tudo errado.
– Podemos dizer que somos antropólogos e estamos fazendo uma pesquisa de campo. Eu tenho cara de antropólogo.
– Finalmente uma boa idéia. E onde a gente se formou? Elas vão perguntar… – O que você acha de alguma universidade local com mestrado e doutorado numa da Ivy League… Isso ia pegar bem.
– Não, Ivy League não, melhor Sorbonne. Graduação na USP e pós em Paris IV.
– Muito PSDB isso, né? Tem que botar no currículo um trabalho de campo com uma tribo perdida na Amazônia pra ficar mais de esquerda.
– Isso! E DJs nas horas vagas. A gente colocava os indios pra dançar! Loucura total na floresta.
– Espetacular! Não vai ter pra ninguém. Certamente elas vão enlouquecer. Não tem como dar errado, o plano tá perfeito. Trouxe camisinhas? Muitas? Vamos, é hoje!
Quando levantei com o copo na mão e girei em direção à mesa das moças, uma surpresa: já tinha dois caras lá. Deviam ter chegado durante o nosso interminável brainstorming. Estávamos tão preocupados elaborando estratégias geniais de approach que nem percebemos. Os sujeitos estavam de short, havaianas e camisa de time de futebol. Deu para ouvir eles falando algo sobre um show da Ivete e do Asa de Águia. As moças estavam rindo. Nem repararam que estavamos em pé, perto da mesa. Voltamos ao zero. De onde na verdade nunca chegamos a sair.
– Você acha que a influência da axé music sobre a juventude carioca é algo que deveríamos ter levado em conta? 
– Não sei, que diferença faz? Os caras já estão na mesa, agora a gente não tira eles de lá nem com um pé-de-cabra. Quer saber? Provavelmente as duas eram lésbicas.
– É impressionante a quantidade de lésbicas que a gente encontra.  
– Há uma revolução em curso. O lesbianismo deve ser efeito colateral. 
– Li na Wired uma matéria que diz que no futuro as mulheres só vão se interessar por nerds. É só esperar.
– Aquelas duas estavam interessadas na gente. Não estão mais. Então o futuro chegou e já foi embora, continuamos na mesma situação que no passado. Somos uma versão fracassada do Highlander, a gente atravessa o tempo sempre se dando mal.
Finalmente aparece o Beto.
– Vocês souberam do Plínio? Não viram o jornal? É o pivô da separação daquela atriz.
– Mas ela não é lésbica? Não era casada com aquela outra?
– Era, mas depois que conheceu o Plínio não é mais. Parece que o segredo é o xadrez, as mina pira, foi o que ele me contou. Vocês sabem jogar? Trouxe um tabuleiro, pede uma cadeira para aquelas moças naquela mesa ali no canto.

7 thoughts on “O pesadelo dos geeks

  1. regina mas disse:

    Olá…Estou rindo muito com seu texto e com uma peninha danada dos nerds!! Que vida mais difícil desses meninos! Se passassem por ali num carrão impórtado, último tipo, não precisariam dizer coisa alguma…Garanto!

  2. regina mas disse:

    o acento em “importado” foi erro de digitação.

  3. Dessa vez a história foi desenrolando e comecei a me perguntar qual seria a sua pretensão desta vez, a coisa parecia séria e desinteressante, comum…
    Mas tem um momento em que você começa a dar espírito ao assunto e aí o reconheço: – Você me faz muito bem, adoro rir despropositadamente, adoro uma boa conversa fiada sem baixarias. O parágrafo que supõe Chiquinho Sacarpa e Jorginho Guinle juntos, arrematando com o blazer, o brazão e o foulard, aí eu quase caí da cadeira. Cada comparação foi mais hilária do que a outra!
    Obrigada, Leo, estou precisando muito de rir e você arrasa!

  4. celia lomillos disse:

    Mas o Indiana Jones era Arqueologo ou estou enganada :/

  5. NILTON MAIA disse:

    Mais uma muito boa crônica, Leo. Como sempre, pegando o “espírito da coisa”.
    Não sabia o que era “foulard”, de forma que tive que recorrer à minha cara metade e que me disse que é aquele lenço de “afetados”, em torno do pescoço. Vai daí, ri mais ainda, não bastasse o brazão no blazer.

    Abraços,

    Nilton Maia

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