Antigamente é que era bom

Um vizinho fez uma festa no sábado passado. Só tocava funk. Fico me perguntado como alguém pode gostar disso. Não tem melodia, não tem harmonia, não tem nada. É só um sujeito gritando, uma bateria pueril no volume máximo e nada mais. É isso que chamam atualmente de música? Será que essas pessoas já ouviram Beatles? Se ouvirem Beach Boys os selvagens vão achar que é coisa de outro planeta. Voltamos à tribo, só percussão. Fico me perguntado como chegamos a este ponto. Onde está o verdadeiro rock’n’roll? A própria MPB, onde foi parar? Onde estão os sucessores de Chico, Caetano, Gil e cia? Surgiu algo depois da Bossa Nova e do Tropicalismo? Não vejo nada. Só umas cantoras que eu nunca ouvi falar, cantando bobagens sobre algum assunto sem a menor importância. Onde está o posicionamento político? E as metáforas? Parece que toda a criatividade acabou nos anos 60. Depois nada, só o caos, a barbárie. Me considero tecnicamente morto, não pertenço a nada disso, todo meu conhecimento parece tão inútil como uma máquina de escrever. Nas artes plásticas então, nem se fala. É só enganação, tosqueira, feiúra. Qualquer rato morto é uma obra prima. Se forem muitos os ratos, aí já vira instalação. As galerias e os museus se tornaram trens fantasmas, sustos por todo lado. Onde está a beleza, a representação? Um horror. Depois de Picasso e Matisse, nada. Parece que a meta do artista plástico atual é incomodar o público e fazer ele passar mal. E o cinema? Acabou. Fellini, Kurosawa, Bergman, foram todos trocados por filmes para adolescentes. Barulho e explosão, é só o que eles querem e é o que Hollywood dá. Como ter uma reflexão, um pensamento, no meio de tamanha confusão? Imagina se Antonioni ou Godard precisavam de tiros e perseguições de carro pra passar uma mensagem. A mediocridade virou uma utopia. Como não ser saudosista? Antigamente para ser artista tinha que ter cultura, tinha que saber o que estava acontecendo, tinha que ser um homem do seu tempo. Onde foi parar o espírito revolucionário dos 60? São esses garotos vidrados em tablets e smartphones que vão fazer alguma coisa que preste? Façam-me o favor… Dá pra ver um John Lennon no meio dessa juventude? Um Bob Dylan? Nem pensar, essa geração não consegue ler um livro que não tenha figurinhas, não consegue manter o foco por mais de cinco segundos. Só conseguem pensar em futilidades, redes sociais e relacionamentos. Qual o futuro que teremos com eles? Nenhum. Não tenho mais paciência para ver ou ouvir nada, é tudo uma porcaria, não vale a pena. Melhor ficar com o que já foi feito.

 

– O texto acima é irônico. Se você não sabe o que é ironia ou não sabe reconhecê-la, leia tudo novamente. Isto é ironia.

– O parágrafo acima não é ironia, é sarcasmo. Se você não sabe o que é sarcasmo ou não sabe reconhecê-lo, leia tudo novamente, desta vez de olhos fechados. Isto é sarcasmo.

15 thoughts on “Antigamente é que era bom

  1. Valeria Brion disse:

    ADOREI !!!!!!
    E não estou sendo irônica e nem sarcástica.

  2. Fausto disse:

    Achei horrível. Os posts antigos do Leo é que eram bons. :-p

  3. Simone disse:

    Aversa, a cada dia mais afiado!

  4. Jesus disse:

    Valei-me, são Sergio Augusto Tinhorão!

  5. Luiz V disse:

    Boa!
    Falou e disse.

  6. Odone Bisaglia disse:

    Nos lugares onde o funk é ouvido, existem mais três ingredientes que não podem faltar: fila, cerveja quente e briga no final. Não é maravilhoso?
    PS- Isto é uma ironia.

  7. regina mas disse:

    É irônico mesmo? Li de olhos fechados… Sem sarcasmo…
    Depois que eu soube e vi num museu apresentarem um cachorro, preso, sem comida ou água, até a morte, passei a refletir mais sobre arte e onde se pretende chegar. Sem qualquer sombra de ironia ou sarcasmo. Estou mesmo por fora, felizmente!

    • NILTON MAIA disse:

      Muito bons seus comentários acerca da crônica do Leo, Regina Mas.
      A história do cachorro é verdadeira, e complemento: a corda que o prendia era muito curta, de forma a impedir que pudesse deitar ou sentar. A exposição foi na Espanha e o jornalista Fritz Utzeri, ao escrever sobre o assunto, disse que o ser humano pode ser de uma crueldade absurda.

      • regina mas disse:

        Obrigada Nilton. Confesso que não entendi bem a razão pela qual o Leo diz que o texto é irônico. Bem… talvez eu não saiba direito o que significa IRONIA. O fato é que eu escreveria o mesmo texto – não tão bem quanto o nosso amigo Leo – pois representa o que sinto no momento. Além do cãozinho, morrendo do fome, presenciei um ato que me deixou pensativa. Estava eu no MOMA, (museum of modern art) em Nova Yorque quando vi uma senhora parada em frente a uma tela branco… é, totalmente em branco. Parei ao seu lado e para apreciar a tal tela e tentar descobrir o que ela vira de tão interessante. Infelizmente não descobri coisa alguma… risos… Então, pus-me a refletir sobre a inusitada situação. Passou-me pela cabeça o seguinte: quem sabe o autor da tela quisesse que nós, os espectadores, projetássemos nela nossos fantasmas, nossos desejos, nossa alma, nosso interior… Pois é… quem sabe? Como não é meu costume avaliar logo o que ocorre, vou esperar, dar tempo ao tempo e ver o que a arte atual nos reserva e, principalmente, se ela irá sobreviver, como sobreviveu a música dos grandes mestres compositores, assim como a arte dos grandes pintores que todos nós conhecemos. Da mesma forma, ninguém jamais esquecerá de um Noel Rosa, Chico Buarque, Pixinghinha e outros tantos que nos deixaram um legado precioso. O que escrevo não tem nada de irõnico… tem, sim, um traço de tristeza. Não sou saudosista nem acho que o agora é pior do que o antigamente. Muito do agora é maravilhoso como, por exemplo, eu poder estar escrevendo e lendo o que têm escrito e comentado. Crescemos em tecnologia de comunicação, sem dúvida, mas só o tempo dirá o que fica e o que terá como futuro apenas o lixo da história.
        abçs a todos

  8. Vivi os anos 50, os 60 e até os 70, ainda era tudo muito bom mesmo, não é uma avaliação apenas pessoal, era bom pra todo mundo. Aí começou a era do rock nacional…Pra mim, é o mesmo que tomar uísque feito aqui, sakê feito aqui, estrogonofe com palmito, pra economizar o cogumelo. Muito esquisito, mas meu filho entrava com o pé no acelerador, trazendo aquelas aberrações pra dentro de casa. Eu só pedi a ele que não levasse esses “discos” para NY, quando foi morar com o pai, ainda bem pequeno,
    -” Se você tocar esses discos lá, o pessoal vai te jogar pedra, lá é a terra do rock, não cometa esse desrespeito, depois que você ouvir rock de verdade, vai jogar esse discos fora!!!”.
    É claro que isso aconteceu!
    Bem, “viajei”…
    O que quero dizer, é que desde aquele tempo, fico muito feliz em lembrar dos tempos em que ligar um rádio era pra sentir prazer, hoje só ligo o botão pra colocar um CD, rádio nunca mais!

  9. Cioti disse:

    Desde há muito a sociedade brasileira vem sofrendo um processo de desestruturação familiar, mediocrização e imbecilizacão através dos meios de comunicação populares – programas de televisão, novelas, programas de “humor”, revistas populares, músicas sem conteúdo nenhum, violência, exacerbaçaõ da sexualidade precoce, apologia e divulgação da homossessualidade, valorização do sexo pelo sexo e uma coleção de outras agressões tais como incentivar a juventude ao alcoolismo pelas cervejas, incentivo à violência etc.

    Parece-me que até o Governo participa pois o fato é flagrante e nada se faz para coibir. Com exceção dos evangélicos as demais Igrejas se mantém acuadas, caladas e sem atitude.
    A coisa vai de al a pior.

  10. Marcos Max disse:

    Os filmes hoje em dia são um grande comercial de duas horas para alavancar a venda de bonecos e games

  11. Norma disse:

    Tudo acima: verdade verdadeira.
    A desumanidade chegou ao que hoje se considera representação plástica, a pornografia às músicas. o grotesco às relações humanas e continuamos caminhamos achando tudo natural. só para não sermos considerados fora de um podre contexto. “Normal”, dissem … ou fingimos ver sem enxergar.
    Nac♥

  12. norma disse:

    Os seus leitores podem não saber com precisão distinguir ironia de sarcasmo. Mas com certeza de elegância, aparentemente, entende. Pois não creio que algum dele fossem usar sua página do Facebook para expor os seus leitores, ao deboche de terceiros. Lamento estou de descadastrando. Não foi fair! Norma

  13. Mauricio disse:

    Essa frase é tão antiga!! Nos anos 60 , os adultos reclamavam dos jovens – “Nossa que música horrível é essa ? É Rock´N Roll” que porcaria essa música ! Nos anos 70 o mesmo, 80, 90. Resumindo , sempre a geração anterior falando que os jovens são burros e sem imaginação ou cultura , é claro que a maioria é , assim como eram as gerações anteriores também, mas sempre existem aqueles que tem cultura , são inteligentes e criativos e constroem coisas interessantes que vão fazer nosso futuro melhor. Vamos para com esse papo de velho que antigamente era melhor!

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