Ordem e progresso

Como todo lugar, tinha qualidades e defeitos. Era do lado do trabalho, vista ótima, a praia era logo ali e o aluguel dava para pagar. Ao mesmo tempo faltava água sempre, quem mandava na comunidade era a dupla Coisa Ruim e Praga-de-mãe e pra chegar em casa tinha que subir uma escadaria sem fim. Dona Dalva não se queixava. Tinha até sorte: a dela, alugada, era de alvenaria e confortável. Coisa Ruim e Praga-de-mãe não incomodavam por que eram muito gratos ao marido, Seu Chico, ex reserva do São Cristovão, que ensinara a dupla de traficantes a bater pênaltis quando eram crianças. A luz era no gato, assim como a TV. Tinham um orçamento curto mas as despesas encaixavam, o comércio por ali era barato. Dona Dalva fazia faxina em três casas na zona sul e Seu Chico era aposentado. Podia ser bem pior. Uma prima, a Marinete, que também era faxineira, morava numa favela da zona norte e passava metade da vida no ônibus pra chegar no trabalho.

Quando veio a UPP toda a comunidade ficou aliviada. Finalmente iam se livrar daqueles descerebrados violentos. Podiam andar tranquilos, dia e noite, sem bala perdida, sem crianças desfilando de fuzil. Agora sim a coisa ia ficar boa, a comunidade ia virar bairro, iam ser gente chique.

Primeiro veio a Light, instalando relógios de luz em todas as casas. Lei é lei, a conta veio cara mas todos pagaram, sem reclamar. Depois veio a conta da TV a cabo. Com a gatonet Dona Dalva tinha todos os canais, gostava das séries na HBO e dos filmes do Telecine, mas pelo preço da NET só dava para o pacote básico do básico. Agora era só novela da Globo e debate no Sport TV. Fazer o quê. Foi então que começaram a chegar os gringos.

Um casal de franceses alugou um apartamento lá no alto. Achavam tudo exotique. Davam bom dia até pra poste. O pessoal gostava. Depois vieram uns suíços, compraram uma casa, reformaram e transformaram num hostel. Foi um sucesso. Pros gringos tudo era mais caro, do moto táxi ao aluguel. Eles nem aí, achando sempre exotique. Dona Dalva não se importava, estava mais preocupada com a conta de luz. O banho agora não podia demorar mais do que dois minutos. Ela já não aguentava mais debate no Sport TV

Depois dos gringos começaram a aparecer os artistas plásticos. Esses eram bem estranhos. Roupas esquisitas, jeito largado, para Dona Dalva pareciam todos mendigos. Mas mendigos com dinheiro. Um dia Dona Dalva apareceu na birosca do Zé pra tomar um café e ele, orgulhoso, perguntou se ela queria experimentar um capuccino. O tal capuccino custava cinco vezes mais que o café normal. E o normal não vinha mais em copo, agora era numa xicara que mal cabiam dois dedos. A birosca vivia cheia de artistas e gringos. Virou Café do Zé. Aquilo já não era mais pro bico dela.

A pensão da Dona Maria foi outra que mudou. Virou bistrô. O PF agora era prato do dia e anunciado num quadro negro. Dona Maria aparecia dia sim dia não em coluna social. Já fora destaque em dois guias. O tal prato do dia do quadro custava quatro vezes mais que o antigo PF. Dona Maria nem ficava mais na cozinha, já tinha muitos empregados, passava o dia tirando foto pra revista.

A PM acabou com o baile funk do fim de semana. Muito barulho e confusão , diziam os policiais. A garotada do morro reclamou mas não adiantou muito. No lugar do baile os suiços do hostel organizaram uma roda de samba, que era sucesso entre os novos moradores. Vinha gente de toda a zona sul, todos fascinados, tirando foto sem parar. Dona Dalva achava bom, mas seria melhor se eles tocassem coisas mais novas, tipo Diogo Nogueira ou Dudu Nobre. Estava cansada de Noel Rosa.

Quando chegaram os músicos,  os designers, os estilistas e os fotógrafos é que a coisa ficou feia de vez para os antigos moradores. Os preços dispararam, tudo custava dez vezes mais do que antes, até comprar arroz e feijão era complicado, tinha mais de vinte marcas, quase tudo importado, preço absurdo. Apareceu até feijão orgânico, mais caro que filé. O armazém virou empório, tudo era gourmet, premium e diferenciado. Do nada surgiu um Zona Sul e um Pão de Açucar , os flanelinhas faziam a festa. A rua parecia desfile de moda, os novos moradores olhavam de cara feia para quem não se vestia como eles. Dona Dalva já estava de saco cheio das novidades. Mais um mês e o proprietário apareceu dizendo que o aluguel ia aumentar. Aumentar não, ia dobrar. O casal reclamou, chorou mas não teve jeito. O dono disse que tinha gente da zona sul querendo pagar o triplo. Dona Dalva ligou pra Marinete.

Quando se mudaram para a comunidade da prima, na Zona Norte, as primeiras pessoas conhecidas que eles encontraram foram o Praga-de-mãe e o Coisa Ruim, a dupla do terror. Esses tinham melhorado de vida, controlavam agora várias favelas na área. Ficaram até felizes ao ver o casal: “Seu Chico! Veio ensinar a molecada a bater pênalti? Chega aí, tamo junto, tá tudo dominado! ”.  Dona Dalva percebeu que quase todos os moradores da comunidade da Zona Sul estavam por lá. Mais uma vez entregues aos traficantes e agora passando metade da vida num onibus. Dona Dalva atualmente tem que trabalhar em seis casas, pra poder pagar o transporte. Uma delas fica na zona sul, exatamente onde morava. Lá faz a faxina para um casal de estilistas. O lugar está lindo, as casas todas pintadas, ruas bem iluminadas, policia em todo lugar, até teleférico tem. O que não tem mais é algum conhecido, só o Zé da Birosca e a Dona Maria. A vista continua ótima.

13 thoughts on “Ordem e progresso

  1. Valeria Brion disse:

    Adorei a crônica. Perfeita descrição do que está acontecendo.
    parabéns, Leo !

  2. Norma disse:

    Eu me encantei com a tua facilidade em fotografar esse momento. Leo, vc é bom de verbo!
    Norma

  3. regina mas disse:

    Mais uma excelente crônica! A coisa está quase chegando lá, se é que já não chegou mesmo. E eu acrescentaria, pois sei de fonte limpíssima – a moça que trabalha aqui em casa mora lá… – que as casas passaram a ter grades nas janelas, detalhe mais que chique, tipo zona sul, de fato e de direito. Além disso, os fuzis sumiram, dando lugar às facas menos barulhentas, mais discretas e convenientes, no caso.
    Aproveito a oportunidade que me dá essa crônica, para render minha homenagem ao pessoal das comunidades que, em sua maioria, é gente de bem, dedicada ao trabalho honesto, à familia e ao bem comum.
    Parabéns, Leo, por mais essa crônica tão verdadeira como divertida…
    abços regin@

  4. Louri Ferreira disse:

    Fantastique, mon cher… mais… c´est la vie

  5. Regina Racco disse:

    Texto maravilhoso já devidamente compartilhado. parabéns 🙂

  6. NILTON MAIA disse:

    Caro Leo,

    Assim é covardia! Você só escreve coisa boa, companheiro!

    Um grande abraço do já fã de carteirinha,

    Nilton

  7. Eugênio disse:

    Mais uma tacada sem bater na caçapa Léo, muito boa abordagem!

  8. Leo, hoje você me fez chorar. Não é preciso dizer porque, aposto que sua alma também chora…

  9. Claudio Hideki disse:

    Acredito que não demorará muito para os novos habitantes das chamadas comunidades inspirarem-se naquelas casas brancas da Grécia e fazerem o mesmo por aqui. Além disso – e falando mais seriamente – percebo uma ainda silenciosa tendência dos antigos moradores destes lugares migrarem para outras favelas mais distantes, de forma forçada, por conta da extorção em que se transformou o custo de vida.

    Elitistas e classistas veem algo de muito bom e oportunista nisso tudo aí, essa triste piada em que se transformou o nosso modus vivendi…

  10. albert cohen disse:

    é uma boa crônica de costumes, mas o que de mais estranho há no Rio é o fato de as comunidades mais pobres, na zona sul e arredores, ficarem sitiadas nos altos dos morros, um local caro por excelência. E no qual era preciso impor a ordem para garantir a tranquilidade daqueles que pagam impostos, e eram muito prejudicados por este clima de desordem. O ideal era que a cidade retomasse esses lugares, e que os mais pobres fossem para locais periféricos, como ocorre em qualquer país decente do mundo. Com o afastamento de antigos moradores, com a chegada da ordem e da lei, os espaços poderão ser retomados, não mais pela via da remoção, uma imposibilidade política, mas pela da compra. O mesmo ocorre em NY, onde vou regularmente várias vezes ao ano. Tem que ser assim. Rio, Paris, Ny, tudo cidade para turistas. Dependem deles para sobreviver, e exigem segurança total, ou quase, para atraí-los.

  11. Christinna Costa disse:

    Li essa um pouco atrasada…muito boa e verdadeira a tua visão disso tudo. Ri muito e deve estar cheio de Dona Dalva por aí. Resolver ,nunca acontecerá, na minha opinião…é mexer no vespeiro das próprias “autoridades”. Se muda de lugar então…e o resto, continua sendo o resto.

  12. disse:

    Parabéns esse texto poderia ser usado na abertura de qualquer palestra sobre renovação do espaço urbano nas cidades.
    No caso, é trágico, porque a personagem não tem a disposição de 20-30 anos atrás e, onde foi morar, não tem hospitais públicos ou escolas do nível da Zona Sul.

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