A vida breve de Che Guevara

alicerce

 

A década de 70 era a da resistência, todos contra a ditadura e, se desse tempo, por um mundo melhor. A de 90 era tempo de murici, cada um por si. Quem entrava na adolescência nos anos 80 estava meio lá, meio cá. A cabeça indo para um lado e o corpo pro outro. Ou o contrário.

Foi o meu caso. Cresci aprendendo que governo era um bando de truculentos incompetentes e que fazer o necessário para derrubá-lo era a única atitude possível. Naquele tempo herói era sempre do contra e ser chamado de materialista a pior ofensa possível. Hoje é o herói o materialista e ser do contra a pior ofensa. As coisas mudam, normalmente para pior. Talvez por conta desse passado eu ainda hoje escute vozes na cabeça quando compro qualquer objeto um pouco mais caro. “E as crianças da Biafra?” , “você acha que vai ser mais feliz comprando coisas?” ou  “consumista…tsk, tsk, tsk” dizem as vozes, sempre mal humoradas. Enfim, ecos de outros tempos. Nada que um Rivotril não resolva.

O fato é que no inicio dos 80 eu estudava no Andrews, ali na praia de Botafogo. Certo dia um amigo me falou de um grupo chamado Alicerce. Alicerce da Juventude Socialista, para ser exato. Eram o braço secundarista da Convergência Socialista, uma das organizações de esquerda que lutavam contra os militares. Para quem estava procurando alguma chance de fazer algo politicamente relevante antes que a ditadura caísse de podre, era a chance de ouro. Eu tinha doze anos. Me considerava um Che Guevara mirim. Só faltava demonstrar isso ao mundo. O Alicerce era essa chance.

Como o Andrews era um colégio de elite, foi difícil achar companheiros dispostos a colaborar com a marcha inexorável das massas proletárias rumo ao poder. No fim de intensa campanha éramos três. Contando comigo. Aparentemente pouco para quem pretendia implantar o socialismo, mas a turma de Che e Fidel era pequena quando começou a marcha por Sierra Maestra. Então era questão de tempo. No máximo em dois anos já estaria instalado o regime socialista, diziam os mais experientes, os que tinham quinze anos. Nunca peçam para um adolescente calcular probabilidades. Fundamos o núcleo Andrews do Alicerce numa cerimônia histórica e comovente durante um intervalo de aulas. Comunicamos com a devida pompa à diretoria da escola e requisitamos uma sala para reuniões, o que de maneira suspeita, nos foi negada. Foi o momento que tivemos certeza que já estávamos na mira dos militares e da própria CIA. Talvez fosse a hora de mudar de nome e cair na clandestinidade. Cheguei a mencionar essa possibilidade no jantar em casa, mas meus pais, burgueses céticos e incorrigíveis, não me levaram a sério. Não seria fácil.

Basicamente nossas atividades eram discutir como seria a implantação do novo regime  e vender nosso jornal, para financiar o movimento. E tinha as reuniões gerais de todas as escolas aos sábados. Uma agenda pesada e desgastante. Muito difícil a vida de um revolucionário. O plano era assim: com a venda dos nossos jornais as pessoas iam tomar consciência da opressão que a elite exercia sobre os operários e naturalmente iam espalhar nossa mensagem como rastilho de pólvora, até o ponto em que os militares seriam obrigados a dar lugar ao proletariado no comando do país. Não tinha como dar errado, só os cegos não enxergavam isso.

Já que não conseguimos lugar onde nos reunir na escola tivemos que arrumar um lugar fora dela. Perto havia um pé-sujo e um McDonald’s. Escolhemos o mais familiar para nós.  Entre big macs e coca-colas vibramos com as notícias sobre as greves em São Paulo. Era evidente que se tratava do ensaio geral, igual ao de 1905 na revolução russa. O que os operários brasileiros precisavam era de uma orientação, de uma vanguarda intelectual. E era aí que entrávamos nós na história. Não tínhamos muita intimidade com fábricas e operários mas eu tinha visto “A fantástica fábrica de chocolate” na televisão e os operários de verdade não deveriam ser muito diferentes dos oompas-loompas.

Nosso grande momento foi durante o comício das diretas, em 84. O Alicerce preparou uma faixa gigante, convocando para uma greve geral, a ser aberta durante o ato na Candelária. Coisa linda, exceto que pelo tamanho da faixa. Ninguém que estava atrás dela conseguia ver o palco. Fomos vaiados por meio milhão de pessoas sem parar, até que a policia retirou nosso estandarte. O povo ainda não estava preparado, desconfiei naquele momento.

O tempo foi passando, muito ensaio geral mas revolução que é bom, nada. Quando entrei tinham me falado que em dois anos no máximo estaríamos no paraíso socialista. Já tinham se passado os tais dois anos e continuávamos na mesma. Pensei em ir ao procon reclamar mas achei que não seria de muita valia. Acabei me afastando, inclusive porque já estava com quatorze anos e aquelas reuniões de sábado, onde a única mulher presente tinha mais bigode que eu, foram ficando muito chatas. A Convergência e o Alicerce seguiram em frente gerando o atual PSTU.

O tempo passou e o preto e branco virou uma infinidade de cinzas. Ter bandidos e mocinhos bem identificados facilitava muito a vida. Cheguei a passar férias na antiga União Soviética mas mesmo lá o meu entusiasmo juvenil pelo socialismo não foi muito bem recebido. Acho que os russos já tinham se vendido ao ouro de Washington. De qualquer maneira desde então sempre votei em partidos de esquerda, ainda que, comparando ao Alicerce, qualquer coisa era de direita. Virei pragmático e insensível. Só não posso dizer que vendi meus ideais porque ninguém nunca deu nada por eles. Mesmo assim ainda hoje fico comovido quando escuto o slogan do do PSTU na propaganda política da TV: “contra burguês, vote dezesseis!”. Smells like teen spirit.

 

9 thoughts on “A vida breve de Che Guevara

  1. regina mas disse:

    Você é muito bom no que escreve! Só o fato de me fazer rir, já é uma grande coisa num mundo em que só temos vontade de chorar. Além do humor fino, seu português sem erros me faz bem, pois, infelizmente, o que mais encontro são textos com graves erros de gramática.
    Parabéns e continue escrevendo. Garanto que é melhor opção do que a política.
    Eu me delicio com seus textos!
    abçs
    regin@

  2. Rapaz, você me faz tão feliz nesse momento, rir é o melhor remédio mesmo, mas rir de palavras tão inteligentes de uma reflexão tão rica do humor de quem ri de si mesmo, que de uma forma tão clara, projeta no papel, a cara incoerente daqueles que tinham mais do que 15 anos e que hoje, idosos, mostram sem nenhum pudor, o quanto uma mentira pode levar muitos canalhinhas e se tornarem os maiores canalhas de um país!
    Que bom que seu trio não arrebanhou um grande time e restou você, sozinho diante do teclado e não diante da nação com uma cambada de corruptos.

  3. catia disse:

    mais um texto excelente e divertido! parabéns!

  4. Paula disse:

    Gostei! 🙂

  5. NILTON MAIA disse:

    Prezado Leo,

    “Chovendo no molhado”, parecendo redundante, só posso dizer que é mais uma ótima crônica, que dá prazer em ler, como tudo o que você escreve.
    Genial sua tirada relativa aos conhecimentos do proletariado, via “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. E o que dizer do tamanho da faixa dos militantes do “Coletivo McDonald’s”, sendo xingados pelos “companheiros”?

    Um grande abraço,

    Nilton Maia

  6. Walter Azevedo Ponichi disse:

    Amigo. O socialismo não é nenhuma solução social pois é a mais absoluta ditadura. Como não produz riqueza é especialista em dividir pobreza e miséria entre as infelizes populações que caíram nesse engodo.È contra o mérito individual criando odioso corporativismo.Não tolera pessoas bem sucedidas em função do esforço individual chamando-as de burguesas. È sempre imposto aos povos atravéz da luta armada jamais por livre escolha.Fala muito em liberdade, porém o que acontece com o advento do socialismo é a total supressão de toda e qualquer liberdade individual. Na realidade o comunismo não é uma opção politica mas sim uma doença mental. Ao longo do tempo nunca se observou populações fugindo dos países capitalistas democráticos para os socialistas porém, o contrario sempre foi acontecendo a vista de todos. Lembre-se de Cuba, Muro de Berlin etc.

  7. Aline disse:

    Ótima reflexão e belos sonhos de revolução. Identidade total por aqui e é bom voltar no tempo, apesar dos pesares.

  8. marcus disse:

    Muito bom artigo …………gostei .

  9. disse:

    Maravilhoso!
    Chorei e tenho 61 anos!
    P.S.: Nunca votei no 16 mas curto o slogan e afins

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