Balada da arrasada

AngRoRo

As três coisas que eu mais tenho medo na vida: tpm, barata voadora e barraco. Tpm nem preciso explicar o porquê, passei boa parte da minha vida escolhendo cuidadosamente cada palavra, cada gesto, para que nada fosse  a faísca que ia botar fogo nos hormônios inflamáveis femininos. Sempre um esforço inútil. Barata voadora é o bicho mais assustador de todos, pior que pit bull, nunca sabe de onde ela vem e para onde ela vai, transforma o homem mais digno num patético bonecão de posto de gasolina . E, finalmente, o barraco, por que um escândalo em público, ainda mais para uma pessoa tímida e travada como eu, é um pesadelo pior do que uma pit bull na tpm.

Ângela Rô Rô, cantora e compositora carioca, é uma das mais brilhantes figuras da MPB. Irreverente, ousada, autora de inúmeros clássicos da MPB, sempre se caracterizou pela intensidade, tanto no palco como nas composições. E na própria vida também. Ou melhor, principalmente na própria vida. Hoje está mais tranquila, largou a bebida e as drogas há mais de uma década. É uma estrela em paz.

O editor me pediu um retrato da Ângela para ilustrar uma matéria. Isso foi há muito tempo, mais de uma década, época em que Rô Rô tinha transformado a expressão “enfiar o pé na jaca” no seu lema pessoal. Todo gênio tem um lado B. Ela sugeriu que a foto fosse na praia do Leme, o lugar mais pacato do Rio, onde vivem muitos militares e suas famílias. O Leme é a Copacabana pasteurizada, ali não tem maluco nem confusão.  Achei que a escolha da locação valia como uma declaração de princípios da minha modelo, um anúncio de novos tempos. Ingenuamente também achei que seria uma sessão calma, como fotografar o 3×4 de um general.

Quando desci do táxi na praia já havia uma pequena aglomeração. Isso não costuma ser bom sinal. Dei de cara com a Ângela aos prantos, esguichando lágrimas, lábios trêmulos, toda trabalhada no Nelson Rodrigues. Ao me ver me abraçou e começou a me sacudir. “Ela me largou!, Ela me largou! Você acredita?! Aquela fdp me largou!” . Nesse momento o público que assistia à cena virou os olhos para mim como se eu, de alguma maneira, pudesse explicar quem era “ela”. Ou quem sabe, melhor ainda, como se “ela” fosse eu. Aterrorizado, o máximo que consegui foi balbuciar um “Ângela, não esquenta, já já ela volta…”, sem ter a menor idéia de quem era ela e por que ela tinha ido embora.

Foi a frase errada na hora errada, uma especialidade da casa. “E quem disse que eu quero essa fdp de volta! Quem disse! Tá achando que eu não consigo algo melhor! É isso? Tá achando que eu sou ruim???!!!!. Por conta da minha frase infeliz Rô Rô imaginou que eu pudesse estar defendendo sua ex. Aí o bicho pegou. Foi como enfrentar uma barata voadora e uma pit bull ao mesmo tempo, as duas na tpm. A única coisa em que eu conseguia pensar era: tomara que não passe nenhum conhecido agora. Pensei também em me jogar no mar e nadar até as Cagarras ou me enterrar na areia e esperar o tsunami passar. Faltou coragem.

Mas aos poucos ela foi se acalmando e começamos as fotos. Ficou um clima meio raivoso nas imagens, um recado para a tal ex, do tipo “olha o mulherão que você dispensou, sua fdp”. É uma atitude que, dependendo de quem está sendo fotografado pode variar entre o glorioso e o patético. Ou os dois ao mesmo tempo. Fotografia é síntese.

É claro que na primeira oportunidade o barraco recomeçou. Barraco que é barraco nunca acaba fácil, sempre há uma deixa pra começar  novamente o show. Não tenho medo dele à toa. Ângela lembrou da desgraçada que a abandonara e voltou a me sacudir e perguntar, entre lágrimas: “eu posso amar de novo, não posso? Hein? Hein? Me diz! Falaaaaa!!!” Respondi  que claro que sim, que o amor sempre renasce, ou alguma baboseira parecida, achando que a minha resposta podia influenciar na criação de algum novo sucesso da grande compositora. Meu nome estaria no pé de página da história da MPB só por conta do comentário. Do barraco à glória nonstop, pela via expressa. Sou um otimista.

Mais algumas fotos e Rô Rô foi sossegando. Mas eu sabia que aquilo podia ser o silencio que precede o grande esporro. Melhor não abusar da sorte. Então tratei de me despedir rapidamente. Ângela parecia mais tranquila, tudo parecia entrando nos eixos: eu tinha uma foto boa, ela estava calma, ou menos alterada e, provavelmente, ia conseguir amar de novo. Fiquei feliz, principalmente por que tinha escapado da confusão sem nenhuma testemunha próxima, ou seja, tecnicamente eu poderia negar qualquer participação naquela cena maluca.
Foi quando, uma cara conhecida surgiu do grupinho que acompanhava os acontecimentos. Um amigo gaiato. Mais gaiato do que amigo. Num gesto tipicamente carioca ele aponta para a Ângela com o queixo, olha pra mim e pergunta:

“tá pegando?”

Só deu tempo de olhar para Rô Rô e perceber que ela tinha ouvido o comentário. Desapareci num táxi. Depois procurei por vários dias o nome do amigo nos obituários. Não achei. Espero que continue vivo.

19 thoughts on “Balada da arrasada

  1. sandra disse:

    Que situação! Também morro de medo de barraco e de barata voadora, de tpm nem tanto. Bom te ler!

  2. Ana Flores disse:

    Muito bons e com humor fino seus relatos ou crônicas.

  3. Beatriz Medina disse:

    E a foto ficou linda. Parabéns.

  4. RICARDO FELIPPE ROSALBA disse:

    MUITO BOM,SEMPRE SAGAZ.

  5. Ahahahah! Maravilhoso! Acho que ela adoraria ler isso…

  6. angela tostes disse:

    “O Leme e’ uma Copacabana pasteurizada” e’ otimo. rs Delicia de texto.

  7. Robert disse:

    E Ângela está linda na foto… cara boa!

  8. cris disse:

    Ângela Rô Rô em Copacabana (ainda que no Leme), não poderia ser tranquilo!! rsrsrsrs

  9. Christinna Costa disse:

    Leo…ri muito!!!!!!!!!!!! Bom demais…ela merece ler!!

  10. Laura disse:

    Delícia de texto! Caramba, fotógrafo sofre. Estou tentando me lembrar de como foi a foto que vc tirou do meu grupo musical — faz séculos — para estabelecer se foi uma experiência traumatizante para você… mas acho que foi tranquila. Ainda assim, desculpa aí qualquer coisa, moço.

  11. Morri de rir, muito bom!!! Espero que ela leia – dependendo do estado de espírito, vai adorar!

  12. cátia disse:

    Adoro seus textos e nunca consigo evitar a gargalhada ( o problema é que sempre é no trabalho). ; /

  13. Leo, estou aqui via Lula Carvalho e não perderia um texto sobre a Angela por nada, adoro a persona, a artista, cantora, compositora, tudo tudo, especialmente pela autenticidade assumida e preservada.
    Seu texto é adorável, mostra bem a personagem, mostra que a ama, é todo carinho e dedicação. Muito engraçado, muito esperto, muito perspicaz.
    Muito obrigada pela leitura muito boa. Beijo!

  14. Ciça disse:

    Adorei!
    Fiquei com vontade de ver mais fotos.
    Beijo!

  15. Guilherme Castro disse:

    Delícia de texto.

  16. Isa Oliveira disse:

    História envolvente, me prendeu do ínicio ao fim e ainda me arrancou risadas surpreendendo-me. Muito bom!

  17. Carlos Eduardo disse:

    Excelente texto, muito bom mesmo !

  18. Leo, fui apresentada a suas cornicas por uma amiga escritora e colega de profissão -professora- e amei! Nossa ri muito! Vc é muito espirituoso! Parabens!

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