Tenha modos cariocas

O Rio de Janeiro é uma cidade que exige máxima educação dos seus habitantes, especialmente daqueles que precisam lidar com serviços. Se você não estudou em Eton ou numa daquelas escolas de etiqueta da Suiça ou mesmo na Socila, vai sofrer até para comprar um picolé. Os cariocas que trabalham com comércio são muito exigentes nas boas maneiras e rigorosos com aqueles que ousam modos rudes.

Na cafeteria a garçonete está conversando com a colega, enquanto uma terceira confere o celular. Espero, educadamente, que terminem suas atividades para me servir o café que paguei há dez minutos. Após mais dez minutos, num rompante de indesculpável grosseria, pergunto se uma delas pode me atender. Quiquié? pergunta a que estava o telefone. Peço o café. Açucar ou adoçante? Responde de costas. Se possível açúcar, por favor. Ela arremessa dois saquinhos no balcão e volta ao telefone. Tomo o meu café o mais rápido possível para não atrapalhar, agradeço as moças, que continuam de costas e vou embora, pensando na indisculpável insolência que cometi ao interromper a conversa. Preciso melhorar.

Nos correios o atendente avisa que o Sedex para São Paulo vai me custar R$ 26,20. Questionar esse valor absurdo seria extremamente deselegante então o correto é apenas assentir e pagar. É o que faço. Entrego um bilhete de cinquenta reais, o que já demonstra uma falta de polidez por não ter o valor exato na minha carteira. O funcionário pede uma nota menor. Me desculpo e entrego uma de vinte e uma de dez. Agora ele pede oitenta centavos para facilitar o troco. Digo que infelizmente não tenho. Ele resmunga e faz expressão de desgosto. Digo que posso pagar com cartão para evitar o transtorno que estou causando. Ele, zangado, diz que máquina não está funcionando. Me entrega como troco com mão cheia de moedas de cinco centavos. Peço desculpas pelo inconveniente de não trazer o valor exato e me retiro constrangido com a minha falta de modos.

No supermercado chego na registradora e dou bom dia. A caixa não responde. Tento mais uma vez, pausadamente, ela também não responde. Será que a minha entonação não está adequada? Estarei falando alto demais para o estabelecimento? Ela, sem olhar para mim, pergunta se eu tenho o cartão do supermercado. Respondo, já pedindo desculpas, que não. Ela continua sem olhar para mim. Será que esse supermercado exige smoking e eu estou de esporte fino? Será que o laço da gravata deveria ser semi windsor e eu estou com um simples? Ao terminar de passar os produtos ela murmura algo como “crédito ou débito” e logo em seguida me manda retirar o cartão. Tudo isso sem olhar na minha direção. Vou embora constrangido com minha aparência, certamente o motivo de tal repulsa. Talvez seja o caso de procurar um personal stylist ou mesmo um cirurgião plástico.

São tantas as dificuldades que enfrento por não estar à altura de garçons, atendentes e vendedores cariocas, os duques, condes e barões dos trópicos, que estou pensando em pedir um estágio no Palácio de Buckingham, um workshop de dignidade e cortesia. Quem sabe a própria Elizabeth ll me ensina o que é necessário para ser bem atendido neste balneário tão sofisticado, distinto e cortês. Afinal, só a Rainha da Inglaterra para receber bom dia de garçom carioca.

Liberado

Eram quatro na mesa: três gigantes, tanto para cima quanto para os lados e um magrinho com cara de gaiato, que devia estar no grupo só pela diversão. Os três maiorais não, estavam concentrados numa missão: acabar com toda a comida do estabelecimento.

O Frontera é um restaurante a quilo aqui perto de casa. A vantagem do quilo é que te dá régua e compasso: qualquer excesso dói tanto no bolso quanto na balança. Mas com a crise o restaurante passou a adotar o sistema de bufê liberado e aí veio outra clientela, os profissionais da comilança. Com eles não tem nada de régua, compasso e muito menos balança. Eles querem comer até cair ou, no caso, rolar.

Os três empilharam a comida nos pratos como se estivessem jogando Tetris. Um mar de feijão na base, por cima camadas de arroz, picanha e linguiça e lá no alto pastéis variados. Se é um bufê liberado não precisa encher tanto o prato assim, dirão os pragmáticos, basta voltar e pegar mais. É exatamente a preguiça de levantar que os deixou naquele rotundo estado. Eles querem comer o máximo com o mínimo esforço. São profissionais do ramo.

O magrinho se serviu um prato normal, tinha até uns verdinhos, uma heresia no grupo. Como a cada garfada dele os outros três davam cinco, acabaram todos ao mesmo tempo.

Os maiorais partiram aflitos para a mesa de doces. Até ensaiaram resistir mas o açúcar tira as pessoas do sério. O que economizaram na comilança liberada gastaram na sobremesa, que não está incluída. O pessoal do Frontera também é profissional do ramo e sabe onde está o pulo do gato.

Para não ir à falência comeram só um pedaço de torta cada, ao invés de uma inteira como seria o seu (deles) agrado. Pela cara contrariada, não foi o suficiente. Nunca é. O magrinho pediu um café, que veio com um copinho de chantilly.

– Hummm, comi muito… quero o creme não, pode dividir entre vocês.

A disputa começou antes do fim da frase. Um tentou tomar na mão grande, o outro na marra e o terceiro partiu pra cima dos outros dois, num desespero comovente. Era pouco copinho para muita mão, acabou voando chantilly para tudo que é lado. Enquanto um tentava recolher os respingos com uma colherinha o outro lambia os restos na mesa e o terceiro apenas observava desolado, com os olhos cheios d’água. O açúcar tira as pessoas do sério.

O magrinho ficou rindo, com cara de gaiato. Ele estava naquele grupo só pela diversão

Bienal

 

– Papai! Papai! O Rezendeevil vai hoje nessa Bienal do Livro! Você me leva?

Rezendeevil é um youtuber. A Bienal é no Riocentro. A combinação dessas palavras é assustadora para qualquer pai. As outras que entram só pioram o quadro: cinco da tarde, véspera de feriado e distribuição de senhas.

Uma roubada, horas na fila, horas no trânsito. Pra quê? Ano que vem já não vai lembrar quem foi o rezendeevil, é só uma fase e além disso preciso editar uma sessão de fotos para entregar amanhã. Se for à Bienal de tarde vou ter que passar a madrugada trabalhando.

– Vamos papai? Vamos? Papai? Vamos? Papai? Vamos?

…………………………………

Como imaginei, o trânsito está horrível, um engarrafamento sem fim. Martín começa as perguntas, a curiosidade dele é igual ao engarrafamento.

– Papai, um dia o nosso mundo vai acabar?

Hummm…. A mundo…o mundo depende do sol e o sol ainda vai durar muitos bilhões de anos, o hidrogênio do núcleo…não consigo terminar a explicação, logo vem uma pergunta sobre leões e as hienas. E depois outra querendo saber quanto mede o menor homem do mundo.

– E o maior?

A Bienal está lotada. Conseguimos a senha/pulseira, que ele exibe orgulhoso. Nos corredores circulam as excursões de colégios, multidões de adolescentes, correndo e gritando. Martín fica fascinado com a agitação dos meninos grandes mas ao mesmo tempo tem medo da confusão então segura a minha mão com força para não se perder. Vamos para os livros, onde sempre tem calmaria. Tento convencê-lo a levar alguma história educativa mas ele bate o pé num caderno colorido que vem com uma caneta de tinta invisível.

– Vai ser o meu diário secreto, só eu poderei ler.

A gente senta para tomar um sorvete e ele já pega o caderno. Escreve que vai encontrar o rezendeevil, que vai ser youtubber e jogador de futebol. Astronauta também, se der tempo.

A tinta da caneta não é tão invisível assim.

Chega a hora do youtuber popstar. É um rapaz simpático, articulado, que não diz nada muito inteligente mas que o Martín ouve como se estivesse no Oráculo de Delfos. Está fascinado, frente a frente com seu ídolo. Durante uma hora ele não pisca.

Na saída paramos para um lanche e entre batatas fritas, hamburguers e milkshakes ele escreve no diário que este é o dia mais feliz da vida. Até agora, acrescenta no fim.

No caminho de volta mostro que tem lua cheia no céu. Martín olha e pergunta

– Papai, por que a Lua não cai na Terra?

Hummm…a Lua… A Lua está rodando em volta da Terra, a gravidade é a que a mantem por lá, é ela que segura o Universo no lugar…. As estrelas e as galáxias por exemplo… olho para trás e ele já está dormindo, abraçado ao diário.

Sigo pela Avenida das Américas, sob a lua cheia, rumo à longa noite de trabalho.

Daqui a pouco o cansaço pela madrugada em claro vai passar, o rezendeevil vai se tornar uma recordação e o Martín não vai me chamar mais de papai, muito menos segurar a minha mão. Tudo isso vai passar.

Mas nosso mundo, a lua e este dia, escrito com tinta invisível, esses ficarão.

Mickey, Donald e você

Crise econômica? Vamos para Portugal. Desemprego? Portugal. Violência nas ruas? Portugal. Briga com a namorada? Portugal. Supermercado da esquina só tem Schin? Portugal.

Nos bares, escritórios, redes sociais, a classe média só fala em ir para Portugal. Que, pelo que dizem, é um país pacato, de economia pujante, com empregos sobrando. Vai perder essa oportunidade?

Ao chegar no aeroporto de Lisboa você será recebido com festa e fanfarra. Chegou mais um brasileiro! Viva! Quando disser aos funcionários da imigração que seu propósito é viver e trabalhar nesse simpático e acolhedor país, eles logo lhe darão um abraço apertado e muitos oferecerão a própria casa para você e sua família se hospedarem.

E isso é só o começo.

Ao perceberem que você é brasileiro, todos os portugueses vão sorrir de orelha a orelha. Como os outros europeus, amam os estrangeiros, não é à toa que os partidos de extrema direita são um fracasso por lá. Mas a admiração específica dos lusitanos por nós, brasileiros, sua ex-colônia, é quase paixão. Comovente. Ainda mais agora, que estamos indo em grande número. Ver seu país tomado pelos forasteiros é a grande utopia do português moderno.

Como todos sabem, Portugal é um pais onde se pagam salários altíssimos e com um custo de vida muito baixo. Tirando o salário do imigrante, tudo é uma miséria por lá. De graça. Dado. Pelo preço de um dois quartos minúsculo na Tijuca você aluga uma mansão no melhor bairro de Lisboa. E com a diferença que você vai ganhar muito mais que no Brasil. Você precisa se esforçar muito pra não virar milionário em Portugal.

Por falar em aluguel, ao perceber sua origem o proprietário vai se comportar como se tivesse ganho na loteria. Dá gosto de ver. Alugar para qualquer estrangeiro já é uma honra para um lusitano mas se for brasileiro, aí é que é o próprio nirvana. Nem pense em se preocupar com fiador, depósito ou adiantamento. Um aperto de mão e a questão da moradia está resolvida.

Emprego? Basta sair na rua, você não dará uma volta no quarteirão sem chegar contratado. As empresas portuguesas estão desesperadas atrás de profissionais, de qualquer área, com qualquer formação. Pedreiro? Já no aeroporto arruma umas cinco reformas. Arquiteto? Vai ser disputado a tapa pelos principais escritórios e os trabalhadores nativos se sentirão lisonjeados em lhe ceder o lugar. Serão tantas oportunidades que seu celular não vai parar de tocar, melhor já sair do Brasil com várias baterias extras.

A questão dos transportes é outra maravilha. Como brasileiro, seu lugar natural é no centro, nos melhores bairros, onde você fará tudo a pé. Caso precise se deslocar, terá ônibus, metrô, bonde, todos a sua disposição a qualquer hora e praticamente vazios. Em Portugal, assim como no resto da Europa, não existe esse atraso de subúrbios longínquos, cidades dormitórios, transportes lotados, engarrafamentos. Isso é coisa de terceiro mundo. No primeiro é só conforto, praticidade e vida tranquila.

Como as suas questões de documentos, moradia e emprego serão todas resolvidas no primeiro dia e lembrando que em Portugal ganha-se muito e trabalha-se pouco já no fim de semana seguinte à sua chegada você poderá começar a viajar pelas outras capitais européias, hospedando-se nos melhores hotéis, comendo nos melhores restaurantes e matando os amigos de inveja no Instagram. Afinal, se você está no velho mundo, tem que viver como um legítimo europeu, aproveitando a vida ao máximo.

O importante é lembrar sempre de se identificar como imigrante latino americano para assim ser recebido com sorrisos e portas abertas por todo o continente.

Se você achava que a única solução mágica para todos seus problemas era morar dentro da Disneylândia, estava errado.

Portugal é que é o verdadeiro Magic Kingdom.

É pra lá que vão Mickey, Donald e você.

( Originalmente publicado no Projeto Colabora)

Vinte anos

Numa esquina de Copacabana, vinte anos depois.

– …Isabel?
– …oi…
– …Isabel, sou eu, lembra..? Da faculdade…
– …Oi! Tudo bem com você?

Bel. Eu tinha vinte anos, estávamos no meio do curso. O sítio dos pais do Gê no alto da serra vazio. Vamos passar uns dias lá? De noite fomos pro jardim, deitamos olhando pra cima, você me mostrou o céu, eu inventei um nome para cada estrela e você morreu de rir e essa alegria virou a madrugada e o dia nasceu e o primeiro raio de sol te deixou tão linda que eu tirei uma foto pro resto da vida. Porque não ficamos aqui pra sempre? A gente não precisa de nada, podemos ser caseiros desse sítio e a nossa vida toda vai ser assim, dando nomes a estrelas. Topa? Você sorriu, colocou uma música da Legião e saiu dançando, achando graça dos meus planos. Bel, eu te amava tanto, eu era um garoto, eu tinha vinte anos.

– …tudo bem…você continua igual…
– ‘magina, passou tanto tempo… e o pessoal da faculdade, tem visto?

A gente voltou no domingo, a sua cabeça no meu ombro, o ônibus descendo da estrada, eu com a minha cabeça nas nuvens, você olhando as luzes do Rio que ia chegando. No dia seguinte você disse que precisava pensar e desapareceu. Cada vez que você não atendia o telefone eu chorava tanto que decidi que em vez de chorar eu ia te escrever e escrevi tanto que fiz um livro que era sobre aqueles dias mas que também era sobre a minha vida que ficou ali. Na capa escrevi do alto da serra e colei a tua foto, aquela, e isso era tudo o que eu tinha pra te dar. Fiquei dias na tua portaria até que você apareceu, pegou o livro, disse que ia guardar para sempre, me deu um beijo e disse pra me cuidar. Depois você sumiu no mundo e eu nunca mais te vi. Bel, eu quis te matar dentro de mim mas eu era um garoto, eu tinha vinte anos.

-…daquela turma encontro com um ou outro…e você, o que fez da vida?
-…tanta coisa…Conheci o Alberto na faculdade, ele era de São Paulo, terminei o curso por lá, a gente casou, comecei a dar aulas, tivemos filhos…olha aqui essa foto deles, o Pedrinho é a cara da mãe, né? Ano passado o Alberto foi transferido aqui por Rio e a gente voltou…e você?
-…comecei a escrever naquela época…é uma longa história…Bel, você ainda lembra do alto da serra?
– …ai…minha memória é péssima…alto da serra…não era aquele bar que o pessoal da faculdade ia?
– …era…
-…depois me conta…Alberto tá me esperando, temos um jantar hoje…A gente se vê por aí…

Numa esquina Copacabana eu vi ela ir embora e do alto da serra um garoto de vinte anos finalmente disse adeus.

Paris, Rio

Paris, 2012
 
Estava esperando a minha mulher do lado de fora de uma lojinha na Île Saint-Louis. Era um entardecer de outono, com a luz dourada que só existe em Paris. Pela calçada vinha caminhando um casal de jovens, tão lindos que mais pareciam modelos em algum editorial de moda. Tinham vinte anos no máximo. Pararam na porta de um daqueles predinhos de cinco andares, ao lado da lojinha e ficaram conversando. Na despedida o rapaz, sorriu, deu um beijo na boca da moça e saiu caminhando em direção ao Sena.
 
Mas a moça se virou para o outro lado, onde eu estava, e fez uma careta revirando os olhos, naquela clássica expressão de tédio e desgosto. Entrou no prédio sem olhar para trás.
 
A vida é assim, pensei na hora, triste com a história quebrada.
 
 
Rio de Janeiro, hoje de manhã
 
A moça do caixa está registrando as minhas compras. Ele olha pro garoto das entregas, que está do lado de fora, teclando no celular, perto da minha bicicleta. A cada item que passa, mais uma olhada. Finalmente o telefone dela, do lado da caixa, dá aquele sinal de mensagem de Whatsapp. Ela sorri vai pegar o aparelho mas a gerente faz cara feia. A moça olha triste pra mim e eu, desatento, faço aquela expressão conformada de “A vida é assim…”
 
Enquanto ela me pergunta se é crédito ou débito me ligo, acho uma caneta e um papel na mochila e entrego junto com o cartão. A moça sorri de novo. Escreve rapidamente alguma coisa e eu dobro o papel junto com o recibo do cartão. A gerente de cara feia não percebe. Ao pegar a bicicleta deixo o bilhete com o garoto das entregas. Ele faz aquela clássica expressão de alegria e olha para dentro.
 
A vida é assim, pensei na hora, feliz com a história emendada.

Novos tempos

– A gente vai acabar se fudendo vampirão, você precisa fazer algo!

– Você não, vossa excelência, já disse-lhe inúmeras vezes

– Vossa excelência de cu é rola, que tu só tá nessa cadeira porque a gente deixou. E traz logo a porra do cafezinho.

– Se acalme senador Mefistófeles. Nós vamos resolver

– Ô mordomo, qual é a idéia brilhante dessa vez?

– Deputado Asmodeus, um pouco de respeito. O Dória me deu uma idéia genial…esse menino… me lembra a minha juventude lá na Transilvânia.

– Já sei, a idéia dele é trocar esse terno da Ducal por um casaquinho Lacoste…

As risadas tomam conta do gabinete. O senador Mefistófeles acaricia um Angorá no colo. Não o gato, o próprio ministro.

– Atenção por favor!

O presidente faz o anúncio solene

– Vamos privatizar o governo.

– Caralho vampirão, que porra é essa?

– Empreendedorismo, livre iniciativa, leis de mercado, Aquilo que vocês falam na Globonews.

– Puta que pariu, a gente fala um montão de bobagem, tu vai querer que a gente coma a merda que fala? Tá maluco?

– O mundo inteiro discute a legalização das drogas. Daremos um passo à frente: vamos legalizar a propina. Com recibo e tudo

O deputado Asmodeus fica intrigado

– Recibo? O que é recibo?

– Teremos uma tabela de serviços, como toda empresa: quer um modificação de lei? Cem milhões. Vitória em licitação? Dez por cento. Impeachment? Dez bilhões. Liberação de carne estragada? Cinquenta milhões. Isenção de imposto? Um bilhão.

– Porra, esse impeachment tá barato, a gente recebeu bem mais pelo último.

– Acaba esse mimimi de caixa 2, essa chateação de abrir trust no Caribe etc. A população pode acompanhar nosso desempenho on line, como se fosse a bolsa de valores. Aliás, o menino Dória também sugeriu um IPO na bolsa de NY.

– Peraí mordomo, se a gente der nota fiscal vai ter que pagar imposto. Imposto, caralho!

Asmodeus volta a ficar intrigado

– Imposto? O que é imposto?

– Sim, claro, teremos impostos, obviamente de acordo com a importância do cargo: presidentes e governadores serão isentos. Ministros e senadores cinco por cento. Deputados e secretários, dez por cento

– Mas isso é um roubo! Também queremos isenção!

– Isenção? Um bilhão.

Salve Jorge

 

Foto: Leo Aversa

A foto estava marcada para as 16hs mas como sempre acontece em grandes produções (e nas pequenas também) tudo atrasa. Começamos às 18hs. O meu voo de volta para o Rio era às 20:30. Set montado, luz pronta, entra um dos grandes da musica brasileira, Jorge Ben Jor. Que também tem o tempo contado. Uma hora para as fotos. Dá e sobra. Está tudo pronto, o que poderia dar errado?

Todo mundo quer falar com o Jorge, ninguém é uma lenda viva à toa. Tapinha nas costas, autógrafos, o pacote todo. Fazer o quê? Lá se vai meia hora.

Jorge finalmente fica no lugar. Ele dá uma olhada em volta, vê um amplificador no fundo do estudio, vai até ele, pega a sua guitarra, liga e começa a tocar. Tocar mesmo.

Fudeu (1)

Como sempre acontece quando Jorge Ben começa a tocar, todo mundo entra em transe. O assistente, o diretor de arte, o porteiro do estudio, o motoqueiro que tá passando na rua, até eu, se não me restassem quinze minutos para fazer a foto. E a foto que preciso clicar é ele num fundo infinito branco, que por azar é do outro lado do estudio e o cabo da guitarrra não chega até lá.

Fudeu (2)

Alguém tem que fazer algo inédito na história da MPB. Alguém tem que pedir para Jorge Ben Jor parar de tocar. Isso, em termos musicais, equivale a rodar a Terra ao contrário. Esse alguém serei eu, a Odete Roitmann da musica brasileira. O meu rivotril ficou em casa e a sessão de análise é só na semana seguinte. E agora?

Fudeu (3)

Que se dane, pelo menos entrarei para a história, o único Zé Mané no mundo que pediu pra Jorge ben parar de tocar. Eternidade, aí vou eu.

– Jorge, você poderia parar cinco minutinhos…

Ache que usando diminutivos iria aliviar a minha barra

– Pra gente fazer umas fotinhas ali no fundo branco

O estúdio congelou. O assistente, o diretor de arte, o porteiro, o motoqueiro que estava passando na rua, todos congelaram. A heresia estava no ar. teve gente que foi parar na fogueira por muito menos. Só me restava rezar. Muito.

– Beleza, onde eu fico?

Não perdi o voo, ele não perdeu o compromisso. Obrigado Deus.

Por via das dúvidas, além do Rivotril e da psicanálise, passei a frequentar a missa aos domingos.

Tô devendo.

Rock’n’roll

– The Who vai tocar no Brasil! Nós vamos!

– The Who?

– O verdadeiro rock! Rock’n’roll will never die!

Senti na hora que a frase me tornou oficialmente velho.

– Não quero ver essa porcaria. Quero ver o show do Rezende Evil

Rezende Evil. Youtubber. Fala sobre games. Dez milhões de seguidores, entre eles o Martín. Assisto um vídeo dele. A indigência chega a comover.

– Essa porcaria de Rezende nem música é! Vem aqui, vou the mostrar o que é o Who.

Teeeeeeeenageeeeeeee waaaaaaastelaaaaand
It’s only a teeeeeeenageeeeeee waaaaaaaasteland

Ele demonstra um tédio profundo. Quando começo a cantar junto o tédio dá lugar à vergonha, ainda mais profunda. A mesma que eu sentia quando era criança e meu pai cantarolava Sinatra. O menino não faz idéia do que é a boa música. Ele não tem pai?

Explico, mostro, toco. Nada. Vai ter que ir no show pela orelha mesmo. O menino refuga.

– O Mussoumano é melhor que esse tal de Who

Herege. Meu filho é um herege. Cadê o meu crucifixo. Alguém tem o contato de um padre? Quem será o Mussoumano?

Mussoumano. Rapper. Youtubber, é claro. Três milhões de seguidores. Nem preciso dizer quem está entre eles. Assistindo trinta segundos de Mussoumano se torna evidente que o rapaz fugiu de alguma instituição. É uma cacatua imitando um picapau sequelado.

Penso naquele discurso do Caetano, de 67 “Então é essa juventude que quer tomar o poder?” Lembrar essa frase também me torna oficialmente velho. É a segunda vez em quinze minutos. Mais uma e vou pedir música no Fantástico. Quem sabe uma do Sinatra?

Preciso mostrar autoridade paterna

– Tá decidido. Você vai comigo.

– Nem amarrado! Não quero saber dessa música de velho! Vou no show do Mussoumano e se voce não me levar vou sozinho! Ouviu? Vou no show sozinho!

Aos sete anos Martín está oficialmente rebelde.

Rock’n’roll will never die.

Na mesa uma menina, de uns seis ou sete anos e o pai, um homem de meia idade, terno e gravata. A menina ainda almoçando e ele, um pouco impaciente, querendo ir embora.
 
Nessa hora, meio dia, o Fellini, na General Urquiza, é uma confraria da terceira idade. Todos os velhinhos do Leblon de outros tempos se reúnem, formam um mar de cabelos brancos. Parecem todos amigos. Hoje, no meio daquele oceano, estávamos eu e, duas mesas na minha frente, o pai e a filha.
 
De repente o pai, já sem paciência, fala de uma maneira mais ríspida e a menina começa a chorar. Entre lágrimas diz que quer a sobremesa que ele prometeu. O pai responde que não dá, estão atrasados para a escola, precisam ir embora.
 
As lágrimas comovem a todos. O mar de cabelos brancos está revolto.
 
Há um impasse: o pai não cede, a menina não para de chorar. Ele quer, com a melhor das intenções, dar limite e responsabilidade à filha. Ela não consegue entender porque não tem direito à sobremesa, se comeu toda a salada e o feijão. Os dois tem razão.
A confraria se entreolha.
 
Duas senhorinhas, sentadas perto da saída, levantam e vem lentamente em direção ao pai e a filha. Uma usa uma bengala. É ela que abraça a menina. Abraça mesmo, com força. Diz que tudo vai ficar bem, que o pai só quer o melhor para sua família. A menina para de chorar. A outra fala com ele, diz que criança é assim mesmo, precisa ter paciência, muita paciência, todas dão trabalho. O pai parece ceder. Porque voces dois não vão tomar um sorvete depois da aula? Ele percebe a deixa, faz a proposta, a menina concorda e sorri. Vão embora.
 
As senhorinhas voltam, lentamente, para a mesa. O mar branco já está tranquilo outra vez.
 
Quando saio passo pela mesa delas. Sorrio e comento que não é fácil. Elas sorriem de volta e me explicam que também não é difícil.
 
Já tenho cabelos brancos, mas ainda são poucos.