Eu quero a minha Caloi

Encontro um amigo na Rua Jardim Botânico
 
– E aí, tá indo pra onde?
– Pra academia
– Academia? Tu é uma tia velha, ninguém mais vai em academia, o negócio agora é pedalar. Pra você ia ser bom pegar um sol, perder essa cor de filé de linguado.
– Taí, tenho uma bicicleta, vou tirar a poeira dela
– Então! Vamos subir até a Vista Chinesa! Hit do verão, acabou essa história de Pepê, Posto 9, Arpoador. Quem quer ver e ser visto tem que subir até a Vista. Te espero no sábado, na esquina da Lopes Quintas.
 
Sábado
 
Vejo ele chegando. Parece um carro alegórico entrando na Avenida. Nem no catálogo da Suvinil tem tanta cor. Acho que os fabricantes de roupas e artigos esportivos devem ser todos daltônicos. Ao me ver ele já começa a dar show
– MAS QUE PORRA DE BICICLETA É ESSA!
– Caloi Barra Forte. Muito boa. É de aço!
 
Ele olha aflito para todos os lados
 
– Virou entregador de farmácia? Tira essa coisa horrenda daqui, rápido, antes que passe algum conhecido.
– Qual o problema?
– Tá vendo a minha? Isso sim é bicicleta. Quadro de fibra de titânio finlandês, freio Armani, pedais Lamborghini… o selim é feito à mão por eunucos cegos no interior do Uzbequistão. Pesa cem gramas, com meia pedalada ando dois quarteirões.
– Mas a idéia não é fazer esforço?
– Lá vem voce com esse teu comunismo chato. E que roupa é essa? Camiseta branca? Faça-me o favor…
– É Hering, coisa fina, nenhum furo.
– E cadê o high-tech dela? Esta outfit foi desenvolvido pela NASA, com ajuda do MIT. Tem mais tecnologia aqui do no ônibus espacial. E também é sustentável: 0,00001% do valor dela é doado para a compra de mariolas para alguma tribo africana, tipo ianomâmi, masai, xavante, sei lá, algo assim.
– Precisa?
– Mas é claro! Quanto mais dinheiro voce gasta mais calorias queima, existe um estudo da Nike que comprova essa teoria. já vestindo essa roupa de algodão e com essa bicicleta jurássica você vai chegar lá mais gordo do que saiu daqui. Não dá para brigar com a ciência meu camarada.
– Tem razão, melhor voltar para a minha academia, lá não tem esse problema.
– Depende: quanto é a mensalidade?

A volta de Billy Castro

Para onde? Pergunta o app do Uber. Leblon, escreve Guilherme Augusto Castro Maia, Billy Castro, o designer mais genial de todo Jardim Botânico. O aplicativo mostra um valor absurdo. É o maldito preço dinâmico, se conforma Billy. Duas vezes? Três vezes? Como saber, o espertalhão não avisa mais. E o Uber black? Dá um preço próximo ao do X. O que fazer? É capaz dessa equação mudar até o carro chegar. São muitas contas, demais, sou de humanas, pensa atordoado

E se eu for no, com perdão da palavra, meu carro? A reunião é perto do baixo Leblon mas é mais fácil ganhar na megasena do que achar vaga naquele lugar. Tem um estacionamento ali na Dias Ferreira, aquele do Caetano, mas estacionamento no Leblon é coisa pra banqueiro, não para designer, mesmo o designer sendo eu, Billy Castro.

O taxi 99 com desconto de 30%. Salvação! Opa, não tem nenhum por perto. Estranho, sempre que o Uber entra em preço dinâmico o 99 com desconto desaparece. Alguém tem que investigar isso. Vou falar com meus amigos jornalistas. O problema é que sempre que ligo me pedem dinheiro emprestado. Melhor deixar pra lá.

Cabify. Esse sim resolve! Novo, moderno. Vamos ver…tem um! Que está em….Madureira. Chega em duas horas e meia. Hummm… acho que o pessoal da reunião não vai achar isso muito engraçado. Tem a bicicleta elétrica mas a minha está com a bateria descarregada. Teria que ir pedalando…o suor vai estragar meu visual do Brooklyn. Nem pensar.

Billy tem um acesso de fúria: Maldito país atrasado! Não tem transporte público! Terceiro mundo horroroso! Devia ter ficado em Berlim, em Londres!

Eis que ele vê um agrupamento de pessoas na rua.

O que elas estão fazendo ali? Será que também estão esperando baixar o dinâmico do Uber? Vou me juntar a eles, todo artista tem que ir onde o povo está.

De repente para um veículo que nunca havia visto antes. Parece uma mistura de caminhão com van. Será um Uber gigante? Como nunca reparei nisso? Preciso ver mais sites e revistas nacionais. Todas as pessoas entram. Já sei! É o Maxi Uber Pool! Li algo sobre isso em San Francisco, parece que estavam testando por lá. Ainda bem que sou antenado. Que rápido a novidade chegou neste balneário decadente. O mundo tá mudando.Não posso me atrasar, vou com a galera.

Escaldado pelo Uber X, Billy pergunta ao para o motorista se ele sabe o caminho ou precisa de ajuda. O sujeito olha desconfiado. Deve ser um daqueles motoristas novos, que estão dirigindo por conta da crise. Só por isso não vou tirar estrelas dele. Insolente. Nem imagina com quem está falando.

O Maxi Uber tem um motorista auxiliar, que faz a cobrança. O problema é que exigem pagamento na hora. Que coisa antiga. Tento o cartão de crédito e ele ri na minha cara. Outro insolente. Três estrelas pra esse, sem perdão. Sento junto com os outros passageiros do pool. Tem uns trinta ou quarenta, o Uber é realmente revolucionário, aumentaram o pool otimizando os custos. Gênios, vou anotar a idéia na minha Moleskine. Quero ver esses taxistas medievais detonarem esta idéia. O nome é que tem que mudar, a marca é “troncal”, é o que está escrito na frente. Péssimo branding.

Até que vamos rápido, ao menos o motorista não se atola com o Waze. Já o ar condicionado é meio capenga e algumas pessoas estão em pé, o projeto precisa de ajustes. Chego rápido no Leblon.

Na reunião, para mostrar quem é vanguarda, digo que vim no novo tipo de Uber e explico a novidade para os caipiras. Escuto risinhos, certamente de inveja, não suportam a idéia de que estou sempre um passo a frente

Um diretor de arte metido à besta me recomenda o Uber Under, ainda mais moderno que o Maxi Pool, nem tem motorista. So cool! Diz em voz alta, tentando de maneira patética imitar meu grito de guerra. Conta que vai do Leblon à, com perdão da palavra, Barra em vinte minutos.

É o meio de transporte mais underground que existe, garante um fotógrafo. Mais risinhos. Por aqui pouca gente conhece, voce entra por uma passagem secreta que tem na praça Antero de Quental

E tem app? Pergunta Billy, já sando o seu poderoso iPhone 8

Tem, mas só para Android, respondem em coro

Maldito país atrasado! Grita Billy Castro

Os risinhos invejosos tomam conta da reunião.

O último natal

 

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– Papai, O Dudu e a Sofia, lá da escola, disseram que o Papai Noel não existe. É mentira, né? Me ajuda a procurar no Google?

E lá vou eu para o computador, tentar desmentir o Dudu e a Sofia. Por sorte sou prevenido e já tenho na memória um site de pós-verdades que prova cientificamente a existência do bom velhinho. Também corrobora o ET de Varginha e o Saci Pererê mas não precisamos entrar nessa parte, ao menos agora.

Este ano foi complicado para todos e foi difícil manter a fé do Martín no Papai Noel. A toda hora tenho que buscar alguma explicação para o inexplicável: como consegue levar todos os presentes num único trenó? E as cartinhas das crianças, ele lê sozinho? Todas elas? Quem é o dedo-duro que conta pra ele se me comportei bem ou mal?

Ao mesmo tempo em que duvida montou a árvore com todo zelo e cuidado, cheia de enfeites e luzinhas. Até pediu ajuda com a escada, para colocar uma estrela lá no alto. Também mandou várias cartas iguais para o Polo Norte, só para garantir, ele acredita no Papai Noel mas não nos Correios.

Neste momento está contando as horas que faltam para o natal

Como eu fiz quando tinha a idade dele, vai tentar ficar acordado a noite toda só para ver o Papai Noel entrando pela janela. Também vai pular da cama assim que abrir os olhos para ver o que deixou. Tem coisas que nunca mudam, quanto mais cedo a gente aceita, melhor.

Acho que este é o último natal em que ele acredita. Ano que vem Papai Noel já será um mico, derrota, coisa de pirralho. Quando for adolescente, como aconteceu comigo, vai começar a achar o bom velhinho um agente do capitalismo ou um funcionário decadente da Coca-Cola, até escondê-lo em algum canto da memória

Os natais da infância vão reaparecer em flashes ao longo da vida, iluminando os momentos escuros. A alegria da família reunida, a troca de presentes, os primos correndo pela casa cheia, a árvore com uma estrela lá no alto, voltarão por alguns instantes quando ele precisar de conforto.

E daqui a muito anos, quando o tempo for propício, uma criança vai trazer o Papai Noel de volta pro Martín e também pro Dudu e pra Sofia.

Como trouxe para mim.

Então este natal vai ser o do até logo pro bom velhinho.

Espero estar aqui quando ele voltar. O Martín já não vai precisar de mim para procurar algo no Google, mas quem sabe ainda consigo ajudar com a escada, para colocar aquela estrela de volta ao seu lugar.

 

Gula Gula

Almoçando sozinho no Gula Gula, antes da sessão de fotos. É o tempo que tenho para elaborar um conceito para as imagens. Sentam na mesa ao lado um homem e uma mulher. Ela um pouco perua, ele alto, magro, com um terno justo e barba cortada fio a fio. O que as revistas masculinas chamam de macho alfa.

Quando voce está sozinho, um casal almoçando ao lado é como ir ao teatro, sendo que você não sabe se vai ser Nelson Rodrigues, Shakespeare ou Gugu Olimecha. No Gula Gula então, que põe as mesas coladas umas nas outras, é como estar no palco.

A sessão começa com um monólogo do macho alfa

– Ainnnnn Paty….tô tão apaixonaaaaadooooo…. tão feeeeeeeliz….

Ele diz isso num tom de humorista do SBT imitando gay num programa dos anos 80. Uma drag queen bêbada acharia um pouco caricato.

– Paaaatyyyy….fiquei tão chateado com a cena de ciúme que fiz….achei que ela ia embora …..ainnnnnn….ia ficar arrasssssaaaaaadoooo. Graças a Deus a gente resolveu!

O macho alfa é hetero. Tô confuso. Paty apenas concorda com tudo

– Sabeee, a gente tá pensando em morar junto…

Morar junto é o novo noivado, ao menos isso eu já tinha notado.

– O que você acha, Paatyy…a gente já namora há um ano….tá bom, né…daí a gente casa em 2018! Já tô com vinte e oito anos!

Ele continua falando como o drag mas o conteúdo é o de uma mocinha dos anos 50. Ou melhor, dos 40. O feminismo não passou pelo macho alfa, em nenhuma direção.

– A gente quer ter dois filhos…Paty…ainnnnn…fico nervoso só de pensar…

Paty só concorda. Uma atitude sábia. Faça isso nas redes sociais e voc6e vira rei.

– Um menino e uma menina. Já sei os nomes, não falo pra não dar azar…Ainnn Paty…voce acha que eu tô doido?

Nesse momento tenho que sair. O trabalho me espera. Detesto sair no meio da peça, ainda mais quando é Nelson Rodrigues misturado com Shakespeare e direção de Gerald Thomas.

Durante a sessão de fotos conto para a editora da revista o acontecido

Ela reage com naturalidade

– Você não sabia? Homem agora é assim, age como uma debutante dos anos dourados. Outro dia uma amiga minha saiu com um cara que se recusou a ir pra cama com ela porque não queria perdê-la.

Se comportar como uma mocinha recatada dos anos 40. Inventaram o machismo sarcástico. Que se dane, não sou alfa, não sou debutante e se a minha vida fosse representada daria no máximo um vídeo da Porta dos fundos.

Questões metafísicas me fazem perder o foco: o que eu preciso é de um conceito.

 

 

Roubada comunitária

Entro no café e lá está ela. Uma tristeza enorme me invade. E o pior é que o lugar está cheio, não tenho como evitar. Anos e anos de experiências traumáticas e a decepção não me abandona. Resignado me encaminho para minha nêmesis: a mesa comunitária.

É claro que o corpo de baile está presente: o hipster de bermuda com o seu Macbook aberto, o casal descolado, e, terror do terror, os solitários variados. Acho que o hipster do Mac já vem com a mesa, deve ser um acessório. Em todas as mesas comunitárias do mundo lá está ele, com a mesma cara concentrada e intensa, como se estivesse escrevendo o grande romance da sua época ou então criando o novo Angry Birds. O casal descolado também é o mesmo aqui, em São Francisco ou em Londres: muito celular, muita foto do prato, muita trocação de referências.

O que mudam são os solitários. Tem lugares em que são solitários genuínos. Estão ali sozinhos e querem ficar sozinhos. Foram parar na comunitária porque não tinha outro lugar ou porque confiam que o hipster do Mac não vai abrir a boca nas próximas cinco horas e que o casal não vai abandonar a masturbação das fotos nos próximos cinco anos. Mas tem os falsos sozinhos, criaturas perversas e sorrateiras, que estão só esperando algum incauto cair na sua rede ou melhor, mesa.

No que você senta já percebe que a mala está tentando o contato visual. Como acontece com os bandidos ou os loucos, o contato visual é a porta de entrada do inferno. Olhou, ferrou. Só resta então assumir o controle dessa carroça descontrolada descendo a ladeira.

A primeira atitude é tentar levar a conversa para um assunto complexo, que não precise de interação. Você tem alguns segundos para adivinhar o tipo de chato que está na sua frente: se for uma mala política, por exemplo, você pode dizer “e o Temer , hein…” tanto faz se o pentelho é de direita ou esquerda, ele vai discursar horas e horas sem parar e, melhor de tudo, alheio à sua opinião. O que você precisa é apenas emitir um “arrã” a cada dez minutos. De resto pode ficar no celular, ler algo, olhar a paisagem que para o chato político tanto faz

Tem tambem a mala com causa. Pode ser qualquer causa, desde a preservação das cabines telefônicas a coisas mais cascudas, que não vou citar aqui porque tenho muito amor à minha caixa postal. A mala com causa parece delicada e simpática, desde que você concorde com tudo o que ela diz. Pode usar a mesma tática: um “arrã” a cada dez minutos. E nem precisa dar o start falando sobre a causa. Ela já começa sozinha.

Só existe uma coisa que você nunca, jamais, em momento algum pode falar com a mala com causa. A palavra “mas”. É um erro fatal. “mas você não acha que as cabines telefônicas…” aí ferrou. A mala fica em pé na cadeira, faz escândalo tipo programa vespertino do SBT. E ainda joga um vídeo sobre o seu “mas” nas redes sociais, que é pras outras malas com causa, qualquer causa, virem atrás de você como marimbondos. As malas e os haters, aprenda de uma vez por todas, são como as formigas e as abelhas, criaturas de uma organização assombrosa.

Na mesa comunitária tem mais variedade de chatos do que tipos de nespresso. E todo dia surgem novos então quando você consegue antídoto para um logo aparecem mais dois. É uma batalha perdida

Por sorte o gerente do café é meu amigo e tive a oportunidade de lhe dizer pessoalmente todo horror que tenho pela mesa comunitária, que eles tinham acabado de adquirir. Contei todas as experiências traumáticas, falei sobre a variedade de malas, tudo tim tim por tim tim. Ele prestou muita atenção e acatou tudo. Mais um ser esclarecido que concorda comigo.

Só fiquei desconfiado dele mandar um arrã a cada dez minutos.

 

(originalmente publicado no Projeto Colabora)

Futebol

Na escolinha de futebol a algazarra de sempre, imaginem vinte garotos de seis e sete anos juntos tentando ser Messi e Neymar. Os craques e os fanfarrões, Martín entre eles, fissurados para marcar gols. Os tímidos e os mais novos à deriva.

Na platéia o habitual grupo de babás conversando e alguns pais. Hoje no canto da quadra tem um cara que nunca vi no clube, parece um daqueles que assistem o jogo das crianças para lembrar da própria infância. Tem também uma mulher do outro lado, com cara tensa, que deve ser mãe de um dos jogadores.

A partida segue na correria habitual, chutões para todo lado, um sofrido zero a zero. Quase no final o professor-juiz marca um pênalti. Todos querem bater, vira uma confusão, Martín e sua turma aos berros pedindo a bola. Para minha surpresa um dos meninos mais tímidos também está lá gritando desesperado que quer chutar. O professor não vê e dá a bola para um dos craques. O tímido vai chorando para a beira do campo. Está desolado. O professor percebe e o consola, diz que futebol é assim mesmo, o próximo pênalti ele é que bate. Mas o jogo vai acabar, diz soluçando o garoto, enquanto olha para a platéia. O jogo segue, o craque chuta e é gol. Os vencedores comemoram. Não valeu diz o juiz e professor, eu não tinha apitado. Chama o menino que estava chorando.

Vai lá, agora é a sua vez.

O menino chuta fraco mas faz o gol.

Acaba o jogo.

Ele sai do campo. A mulher do outro lado vai na sua direção. O homem que estava no canto também. Os dois se cumprimentam meio sem jeito, com um aperto de mãos. O menino entre eles continua sorrindo e comemorando.

Na saída passa por mim de mãos dadas com os dois. Dou os parabéns pelo pênalti convertido

– Esses são meu pai e minha mãe, me apresenta o menino sem largar as mãos. Falei pra eles que se os dois viessem juntos eu ia fazer um gol.

Martín me pergunta se o certo não seria quem bateu primeiro repetir a cobrança. Jogo adulto não é igual ao de criança, respondo sem muita convicção enquanto vejo os três indo embora, ainda de mãos dadas.

No ponto

Estou parado esperando o sinal da rua Humaitá, o da banca, que demora horas. Martín tá comigo na bicicleta, vamos para a escola. Na calçada tem um homem de calça branca e camisa colorida. É a cara do Ibrahim Ferrer, o do Buena Vista Social Club.
 
O 409 vem descendo a rua e o homem dá um assovio com os dois dedos na boca, aquele profissa. O motorista ouve, acena e grita de volta em carioquês castiço:
 
– Fala mermão! Se adianta aí que o guarda tá de butuca.
 
O homem está agoniado com a demora pro sinal abrir. Num gesto deboa vontade, o motorista diminui a marcha. São quatro pistas de trânsito intenso entre o Ferrer do Humaitá e o 409.
 
O herói vai a luta.
 
A primeira faixa é fácil. Na segunda ele dá uma parada, tem carro por todo lado. Com ginga dribla dois motoboys e corre pra terceira.
 
O que se vê uma mistura de balé, capoeira e videogame, como se o Baryshnikov estivesse dançando dentro do Playstation ao som de um berimbau. Ferrer é evidentemente um artista.
 
Falta só uma.
 
As dez, quinze pessoas no sinal estão hipnotizadas pela epopéia urbana que se desenrola. “O melhor da vida é offline” está escrito na janela do 409.
 
Um caminhão da Brahma dá uma folga e o artista/herói chega ao outro lado.
 
Falta correr até o ônibus, que mesmo devagar já chegou longe. Agora Ferrer é também Bolt e Biles. Dá um pique de cinquenta metros pula pra dentro.
A galera aplaude. Mando um wooo-hooooo. Martín tá fascinado.
 
Teve a lição do dia.
 
Civilidade e obediência às regras: zero
 
Empatia e malandragem: dez
 
Média cinco passa.

Tubiacanga

Uma revista me pediu para fotografar um bar em Tubiacanga, na Ilha do Governador. A maioria de vocês já passou por lá, só que por cima. Tubiacanga fica numa das cabeceiras do Galeão.
 
Para conseguir pegar o clima de um lugar o ideal é ficar invisível, diz o manual do fotojornalismo. A questão é como conseguir isso. Não é só o visual, é o que você faz, o que diz. Tem que parecer local.
 
Senão você fica tão natural como o João Dória comendo pastel na periferia paulista.
 
Cheguei e sentei numa mesa, enquanto os músicos que iam tocar preparavam os instrumentos. Um casal sentou e puxou conversa. Perguntaram se eu já conhecia Tubicanga:
 
“A primeira vez que vim aqui era tudo mato…”
Pra forçar o sotaque botei tanto S e X que parecia um rádio mal sintonizado.
 
Já comecei mitando, ao menos na minha cabeça.
 
Continuei com o meu número do carioca ixpérto: contei que já tinha assistido jogo do Flexeiras, o time local, no estádio da Portuguesa, ali do lado, detonei o projeto do Galeão de construir mais uma pista, “Uma sacanagem com Tubiacanga!” Falei da saudade que sentia do pastel da Dona Cleusa que vendia ali do lado da Igreja. Tudo trabalhado no Google e na cascata.
 
Chegou mais um cliente e sentou na mesa. Mais público. Aí eu, que estava encantado com a minha própria criatividade, continuei o show. Descrevi com detalhes as vezes que desfilei na União da Ilha, a casa do tio que morava no Moneró e o sabor de um sacolé que só vendia ali na praia da Guanabara.
 
Já estava me sentindo o rei da carioquice, um Bezerra da Silva com pitadas de Romário e Evandro Mesquita.
 
Mais local que os próprios frequentadores do bar.
 
Aí um dos caras que estava na mesa vira pra mim e pergunta, numa comovente mistura de candidez e curiosidade:
 
– Como é morar em São Paulo?

Sorvete

Entrei na sorveteria da Dias Ferreira atrás de um sorvete. Nada muito complicado. Um sorvete de limão. Na China tem sorvete de limão, na Rússia tem sorvete de limão, até no Catete tem sorvete de limão.
 
Mas eu estava no Leblon.
 
“Nosso limão é com azeite extra virgem e basilico” (manjericão, no resto da cidade) disse a simpática atendente.
 
Desde criança estabeleci uma política: cada aporrinhação será compensada por um sorvete. Freud e Lacan ficariam orgulhosos da minha esperteza psicanalítica. Funciona bem ainda que, por razões misteriosas, aos quarenta tenha resultado numa certa barriga.
 
Já na colher o azeite começou a brigar com o limão. Entraram na boca aos tapas e pescoções. Na língua o manjericão metido a besta entrou na luta. Uma batalha horrenda. Não fosse a fortuna que eu tinha pago naquele minúsculo copinho teria jogado tudo no lixo. Teimoso e mesquinho, fui até a última colherada.
 
Pronto, o perfeito sistema de compensação, que me acompanhava a décadas, tinha desabado. A recompensa tinha virado a aporrinhação.
 
Eu precisava me reinventar, como manda a TV
 
Quem poderia substituir o fracassado sorvete no meu perfeito esquema psicológico?
 
Chocolate, esse sim nunca decepciona. Lembrei do Galak, do Chokito, do KitKat até do Sonho de Valsa. O esquema estava pronto pra voltar. Atravessei a rua atrás do que parecia ser um paraíso do cacau. Era ainda mais caro que a sorveteria.
 
“O senhor não quer experimentar este chocolate com pimenta?”
 
Não tem Freud ou Lacan que resista ao Leblon.

Sarcasmo do século XXl

Falar o que vem à cabeça. Do meu enorme cardápio de defeitos esse é dos que me trouxe mais problemas. Uma coisa é uma pessoa inteligente e esperta falar sem pensar, outra sou eu. O comentário infeliz aparece na minha cabeça já todo errado, além de sujo e torto. Mal olha em volta e sai abrindo caminho para a língua, correndo como alguém de piriri em direção ao banheiro. E assim perco mais um amigo, uma namorada, um parente. Sou um artista do deslize verbal. De tanto receber o conselho, da minha mãe, da minha mulher, até do meu filho de sete anos decidi atender. Como se fosse uma lobotomia, adotei o “Não fala nada para não estragar tudo”.

Eles venceram.

Vou na festinha infantil, o pai de um amiguinho começa a fazer discurso a favor do Bolsonaro. Fala alto, gesticula com veemência, diz que a esquerda acabou com o país e diz que só os militares podem consertar a pátria. Em outros tempos eu levantaria o meu braço direito e gritaria Heil Hitler!, dando início a mais uma treta. Voariam cadeiras de plástico e brigadeiros para todo lado, o palhaço tucano iria dar uma voadora na princesa petralha, só sobrariam de pé os traumas nas crianças. Não mais. Agora escuto, esboço um sorriso e não respondo nada. Nadinha. Cara de paisagem. Apenas me encaminho tranquilamente para a mesa de doces. A família olha com satisfação e orgulho.

Estou conversando com um amigo. Chega uma atriz/celebridade/sexsymbol e fala com ele, que nos apresenta: “essa é fulana”. Nada de comentários “inteligentes”, nada de perguntar se a gente não se conhece de algum lugar, nada de piadas sobre a indústria das celebridades. Apenas esboço o sorriso e ainda pergunto: fulana? E ela, que está em todas as telas e capas, responde: “fulana de tal”. Abdicar das bobagens ainda me dá um ar blasé e cool. Minha vida social está melhorando.

Na reunião de condomínio surge pela milésima vez a discussão sobre o entregador de pizza. Devemos deixar subir ou o morador deve descer? Dando início aquele debate chato e requentado que vai durar horas. Assisto a tudo com um leve sorriso. A época de achar tudo aquilo desesperador e falar isso de maneira irônica e sarcástica -aos meus olhos- ou grosseira e rude -aos olhos de todos os outros- terminaram.

Aparece um post no Facebook de um ativista, reclamando furiosamente dos que são contra a sua causa. Na minha vida anterior eu explicaria, lenta e pausadamente, que se alguém fosse contra a causa dele não o teria entre os contatos. Também lenta e pausadamente tentaria fazê-lo compreender o significado da expressão “pregar para os convertidos”. Agora eu apenas dou like e ponho carinha feliz.

Na reunião de família a prima surge com o sapato da hora, masculino e prateado, e desfila pela sala como se fosse a Gisele Bundchen. Seria a ocasião em que eu perguntaria se ela estava trabalhando na NASA ou em outra agência espacial. Comentário este que iria iniciar mais uma confusão familiar, com brigas eternas e juras de ódio mas apenas sorrio e pergunto: “que lindo! Comprou lá fora?” reação que provoca júbilo e regozijo em todos os presentes. Finalmente sou convidado para os batizados e casamentos.

A vida de bonecão de posto, sem piadinhas, observações metidas a engraçadas, comentários com referências obscuras e críticas aleatórias é de uma felicidade só. Tá faltando agenda para tanto evento social que sou chamado. Bastou calar a boca para o tapete vermelho se desenrolar.

Estou tão bem que já estabeleci uma nova meta: não só deixar a ironia e o sarcasmo de lado como passar a fazer comentários positivos e encorajadores. Apoiar tudo o que as pessoas disserem.

A autoajuda é o sarcasmo do século XXl

 

(originalmente publicado no www.colabora.com.br)