Paris, Rio

Paris, 2012
 
Estava esperando a minha mulher do lado de fora de uma lojinha na Île Saint-Louis. Era um entardecer de outono, com a luz dourada que só existe em Paris. Pela calçada vinha caminhando um casal de jovens, tão lindos que mais pareciam modelos em algum editorial de moda. Tinham vinte anos no máximo. Pararam na porta de um daqueles predinhos de cinco andares, ao lado da lojinha e ficaram conversando. Na despedida o rapaz, sorriu, deu um beijo na boca da moça e saiu caminhando em direção ao Sena.
 
Mas a moça se virou para o outro lado, onde eu estava, e fez uma careta revirando os olhos, naquela clássica expressão de tédio e desgosto. Entrou no prédio sem olhar para trás.
 
A vida é assim, pensei na hora, triste com a história quebrada.
 
 
Rio de Janeiro, hoje de manhã
 
A moça do caixa está registrando as minhas compras. Ele olha pro garoto das entregas, que está do lado de fora, teclando no celular, perto da minha bicicleta. A cada item que passa, mais uma olhada. Finalmente o telefone dela, do lado da caixa, dá aquele sinal de mensagem de Whatsapp. Ela sorri vai pegar o aparelho mas a gerente faz cara feia. A moça olha triste pra mim e eu, desatento, faço aquela expressão conformada de “A vida é assim…”
 
Enquanto ela me pergunta se é crédito ou débito me ligo, acho uma caneta e um papel na mochila e entrego junto com o cartão. A moça sorri de novo. Escreve rapidamente alguma coisa e eu dobro o papel junto com o recibo do cartão. A gerente de cara feia não percebe. Ao pegar a bicicleta deixo o bilhete com o garoto das entregas. Ele faz aquela clássica expressão de alegria e olha para dentro.
 
A vida é assim, pensei na hora, feliz com a história emendada.

Novos tempos

– A gente vai acabar se fudendo vampirão, você precisa fazer algo!

– Você não, vossa excelência, já disse-lhe inúmeras vezes

– Vossa excelência de cu é rola, que tu só tá nessa cadeira porque a gente deixou. E traz logo a porra do cafezinho.

– Se acalme senador Mefistófeles. Nós vamos resolver

– Ô mordomo, qual é a idéia brilhante dessa vez?

– Deputado Asmodeus, um pouco de respeito. O Dória me deu uma idéia genial…esse menino… me lembra a minha juventude lá na Transilvânia.

– Já sei, a idéia dele é trocar esse terno da Ducal por um casaquinho Lacoste…

As risadas tomam conta do gabinete. O senador Mefistófeles acaricia um Angorá no colo. Não o gato, o próprio ministro.

– Atenção por favor!

O presidente faz o anúncio solene

– Vamos privatizar o governo.

– Caralho vampirão, que porra é essa?

– Empreendedorismo, livre iniciativa, leis de mercado, Aquilo que vocês falam na Globonews.

– Puta que pariu, a gente fala um montão de bobagem, tu vai querer que a gente coma a merda que fala? Tá maluco?

– O mundo inteiro discute a legalização das drogas. Daremos um passo à frente: vamos legalizar a propina. Com recibo e tudo

O deputado Asmodeus fica intrigado

– Recibo? O que é recibo?

– Teremos uma tabela de serviços, como toda empresa: quer um modificação de lei? Cem milhões. Vitória em licitação? Dez por cento. Impeachment? Dez bilhões. Liberação de carne estragada? Cinquenta milhões. Isenção de imposto? Um bilhão.

– Porra, esse impeachment tá barato, a gente recebeu bem mais pelo último.

– Acaba esse mimimi de caixa 2, essa chateação de abrir trust no Caribe etc. A população pode acompanhar nosso desempenho on line, como se fosse a bolsa de valores. Aliás, o menino Dória também sugeriu um IPO na bolsa de NY.

– Peraí mordomo, se a gente der nota fiscal vai ter que pagar imposto. Imposto, caralho!

Asmodeus volta a ficar intrigado

– Imposto? O que é imposto?

– Sim, claro, teremos impostos, obviamente de acordo com a importância do cargo: presidentes e governadores serão isentos. Ministros e senadores cinco por cento. Deputados e secretários, dez por cento

– Mas isso é um roubo! Também queremos isenção!

– Isenção? Um bilhão.

Salve Jorge

 

Foto: Leo Aversa

A foto estava marcada para as 16hs mas como sempre acontece em grandes produções (e nas pequenas também) tudo atrasa. Começamos às 18hs. O meu voo de volta para o Rio era às 20:30. Set montado, luz pronta, entra um dos grandes da musica brasileira, Jorge Ben Jor. Que também tem o tempo contado. Uma hora para as fotos. Dá e sobra. Está tudo pronto, o que poderia dar errado?

Todo mundo quer falar com o Jorge, ninguém é uma lenda viva à toa. Tapinha nas costas, autógrafos, o pacote todo. Fazer o quê? Lá se vai meia hora.

Jorge finalmente fica no lugar. Ele dá uma olhada em volta, vê um amplificador no fundo do estudio, vai até ele, pega a sua guitarra, liga e começa a tocar. Tocar mesmo.

Fudeu (1)

Como sempre acontece quando Jorge Ben começa a tocar, todo mundo entra em transe. O assistente, o diretor de arte, o porteiro do estudio, o motoqueiro que tá passando na rua, até eu, se não me restassem quinze minutos para fazer a foto. E a foto que preciso clicar é ele num fundo infinito branco, que por azar é do outro lado do estudio e o cabo da guitarrra não chega até lá.

Fudeu (2)

Alguém tem que fazer algo inédito na história da MPB. Alguém tem que pedir para Jorge Ben Jor parar de tocar. Isso, em termos musicais, equivale a rodar a Terra ao contrário. Esse alguém serei eu, a Odete Roitmann da musica brasileira. O meu rivotril ficou em casa e a sessão de análise é só na semana seguinte. E agora?

Fudeu (3)

Que se dane, pelo menos entrarei para a história, o único Zé Mané no mundo que pediu pra Jorge ben parar de tocar. Eternidade, aí vou eu.

– Jorge, você poderia parar cinco minutinhos…

Ache que usando diminutivos iria aliviar a minha barra

– Pra gente fazer umas fotinhas ali no fundo branco

O estúdio congelou. O assistente, o diretor de arte, o porteiro, o motoqueiro que estava passando na rua, todos congelaram. A heresia estava no ar. teve gente que foi parar na fogueira por muito menos. Só me restava rezar. Muito.

– Beleza, onde eu fico?

Não perdi o voo, ele não perdeu o compromisso. Obrigado Deus.

Por via das dúvidas, além do Rivotril e da psicanálise, passei a frequentar a missa aos domingos.

Tô devendo.

Rock’n’roll

– The Who vai tocar no Brasil! Nós vamos!

– The Who?

– O verdadeiro rock! Rock’n’roll will never die!

Senti na hora que a frase me tornou oficialmente velho.

– Não quero ver essa porcaria. Quero ver o show do Rezende Evil

Rezende Evil. Youtubber. Fala sobre games. Dez milhões de seguidores, entre eles o Martín. Assisto um vídeo dele. A indigência chega a comover.

– Essa porcaria de Rezende nem música é! Vem aqui, vou the mostrar o que é o Who.

Teeeeeeeenageeeeeeee waaaaaaastelaaaaand
It’s only a teeeeeeenageeeeeee waaaaaaaasteland

Ele demonstra um tédio profundo. Quando começo a cantar junto o tédio dá lugar à vergonha, ainda mais profunda. A mesma que eu sentia quando era criança e meu pai cantarolava Sinatra. O menino não faz idéia do que é a boa música. Ele não tem pai?

Explico, mostro, toco. Nada. Vai ter que ir no show pela orelha mesmo. O menino refuga.

– O Mussoumano é melhor que esse tal de Who

Herege. Meu filho é um herege. Cadê o meu crucifixo. Alguém tem o contato de um padre? Quem será o Mussoumano?

Mussoumano. Rapper. Youtubber, é claro. Três milhões de seguidores. Nem preciso dizer quem está entre eles. Assistindo trinta segundos de Mussoumano se torna evidente que o rapaz fugiu de alguma instituição. É uma cacatua imitando um picapau sequelado.

Penso naquele discurso do Caetano, de 67 “Então é essa juventude que quer tomar o poder?” Lembrar essa frase também me torna oficialmente velho. É a segunda vez em quinze minutos. Mais uma e vou pedir música no Fantástico. Quem sabe uma do Sinatra?

Preciso mostrar autoridade paterna

– Tá decidido. Você vai comigo.

– Nem amarrado! Não quero saber dessa música de velho! Vou no show do Mussoumano e se voce não me levar vou sozinho! Ouviu? Vou no show sozinho!

Aos sete anos Martín está oficialmente rebelde.

Rock’n’roll will never die.

Na mesa uma menina, de uns seis ou sete anos e o pai, um homem de meia idade, terno e gravata. A menina ainda almoçando e ele, um pouco impaciente, querendo ir embora.
 
Nessa hora, meio dia, o Fellini, na General Urquiza, é uma confraria da terceira idade. Todos os velhinhos do Leblon de outros tempos se reúnem, formam um mar de cabelos brancos. Parecem todos amigos. Hoje, no meio daquele oceano, estávamos eu e, duas mesas na minha frente, o pai e a filha.
 
De repente o pai, já sem paciência, fala de uma maneira mais ríspida e a menina começa a chorar. Entre lágrimas diz que quer a sobremesa que ele prometeu. O pai responde que não dá, estão atrasados para a escola, precisam ir embora.
 
As lágrimas comovem a todos. O mar de cabelos brancos está revolto.
 
Há um impasse: o pai não cede, a menina não para de chorar. Ele quer, com a melhor das intenções, dar limite e responsabilidade à filha. Ela não consegue entender porque não tem direito à sobremesa, se comeu toda a salada e o feijão. Os dois tem razão.
A confraria se entreolha.
 
Duas senhorinhas, sentadas perto da saída, levantam e vem lentamente em direção ao pai e a filha. Uma usa uma bengala. É ela que abraça a menina. Abraça mesmo, com força. Diz que tudo vai ficar bem, que o pai só quer o melhor para sua família. A menina para de chorar. A outra fala com ele, diz que criança é assim mesmo, precisa ter paciência, muita paciência, todas dão trabalho. O pai parece ceder. Porque voces dois não vão tomar um sorvete depois da aula? Ele percebe a deixa, faz a proposta, a menina concorda e sorri. Vão embora.
 
As senhorinhas voltam, lentamente, para a mesa. O mar branco já está tranquilo outra vez.
 
Quando saio passo pela mesa delas. Sorrio e comento que não é fácil. Elas sorriem de volta e me explicam que também não é difícil.
 
Já tenho cabelos brancos, mas ainda são poucos.

Playstation

Nove da manhã de domingo e o Martín está atracado com o iPad. Um garoto de sete anos deveria estar correndo ao ar livre, não com a cara enfiada num tablet, explica o bom senso, que acorda cedo até no fim de semana.
 
Se o que uma criança precisa é de um adulto responsável então estabeleço uma nova ordem na casa: tablet, só meia hora por dia. E playstation? Suplica o menino desolado. Socializar também é bom, grita lá de dentro o bom senso. Playstation pode uma hora mas só se for com mais gente, sozinho não, decreto.
 
– Então vamos jogar uma partida de Fifa!
 
Planejo grandes aventuras para o fim de semana mas a preguiça sempre tem sua própria agenda: vou eu pro sofá jogar videogame com meu filho. Para “dar mais graça” e ao mesmo tempo dar uma volta nas novas regras, o Martín propõe uma aposta: se ele ganhar leva mais meia hora de Ipad.
 
Hummm…sei não…e se perder? Ele lembra que tem cinco doláres que o avô deu. Quinze minutos contra cinco dólares. Que mal pode haver numa inocente aposta? Além disso um pai não pode fugir de desafios, é mau exemplo. As partidas (e as apostas) vão se sucedendo no ensolarado dia.
 
Quando a minhã mãe chega para o almoço descobre que passamos a manhã inteira do domingo jogando videogame. Não só isso, constata que devo três dias, dez horas e quarenta e cinco minutos de tablet ao Martín e que ele me deve cinco dólares, três euros, sete reais, cinco cartas de pokémon e um toblerone que o pilantrinha tinha escondido no freezer. Ela dá um esporro nos dois, pega o tablet, pega o playstation e tranca tudo no armário.
 
Quando vai embora ainda leva a chave.
 
O que uma criança precisa é de um adulto responsável.

S/T

Hoje de manhã fui ao centro da cidade para uma reunião. Quando estava ali pela Senador Dantas fui abordado por um senhor que me perguntou se eu falava espanhol. Respondi que sim e ele começou a contar, em espanhol, uma história bem enrolada e triste, que misturava o consulado argentino, Bahia, Pernambuco e a falta de dinheiro para almoçar. Fiquei com pena.
 
Nasci em Buenos Aires e vim para o Rio com três anos. Mesmo tendo me tornado brasileiro nunca perdi a nacionalidade argentina, então era muita coincidência o sujeito achar, na sorte, um conterrâneo no centro do Rio. Rolou uma empatia que, como sempre me acontece, foi logo substituída por uma desconfiança.
 
E. se ele fosse uruguaio ou boliviano? O sotaque era meio genérico, a aparência também. Podia ser paraguaio, chileno…de qualquer maneira a solidariedade latino-americana falou mais alto e dei vinte reais pro sujeito.
 
Ele olhou o bilhete, olhou para mim e, sem pestanejar, mandou na lata
 
– Você pode me dar mais vinte? Assim almoço no restaurante que eu gosto.
 
Ao menos a desconfiança que tinha sobre a sua nacionalidade desapareceu.

Eu quero a minha Caloi

Encontro um amigo na Rua Jardim Botânico
 
– E aí, tá indo pra onde?
– Pra academia
– Academia? Tu é uma tia velha, ninguém mais vai em academia, o negócio agora é pedalar. Pra você ia ser bom pegar um sol, perder essa cor de filé de linguado.
– Taí, tenho uma bicicleta, vou tirar a poeira dela
– Então! Vamos subir até a Vista Chinesa! Hit do verão, acabou essa história de Pepê, Posto 9, Arpoador. Quem quer ver e ser visto tem que subir até a Vista. Te espero no sábado, na esquina da Lopes Quintas.
 
Sábado
 
Vejo ele chegando. Parece um carro alegórico entrando na Avenida. Nem no catálogo da Suvinil tem tanta cor. Acho que os fabricantes de roupas e artigos esportivos devem ser todos daltônicos. Ao me ver ele já começa a dar show
– MAS QUE PORRA DE BICICLETA É ESSA!
– Caloi Barra Forte. Muito boa. É de aço!
 
Ele olha aflito para todos os lados
 
– Virou entregador de farmácia? Tira essa coisa horrenda daqui, rápido, antes que passe algum conhecido.
– Qual o problema?
– Tá vendo a minha? Isso sim é bicicleta. Quadro de fibra de titânio finlandês, freio Armani, pedais Lamborghini… o selim é feito à mão por eunucos cegos no interior do Uzbequistão. Pesa cem gramas, com meia pedalada ando dois quarteirões.
– Mas a idéia não é fazer esforço?
– Lá vem voce com esse teu comunismo chato. E que roupa é essa? Camiseta branca? Faça-me o favor…
– É Hering, coisa fina, nenhum furo.
– E cadê o high-tech dela? Esta outfit foi desenvolvido pela NASA, com ajuda do MIT. Tem mais tecnologia aqui do no ônibus espacial. E também é sustentável: 0,00001% do valor dela é doado para a compra de mariolas para alguma tribo africana, tipo ianomâmi, masai, xavante, sei lá, algo assim.
– Precisa?
– Mas é claro! Quanto mais dinheiro voce gasta mais calorias queima, existe um estudo da Nike que comprova essa teoria. já vestindo essa roupa de algodão e com essa bicicleta jurássica você vai chegar lá mais gordo do que saiu daqui. Não dá para brigar com a ciência meu camarada.
– Tem razão, melhor voltar para a minha academia, lá não tem esse problema.
– Depende: quanto é a mensalidade?

A volta de Billy Castro

Para onde? Pergunta o app do Uber. Leblon, escreve Guilherme Augusto Castro Maia, Billy Castro, o designer mais genial de todo Jardim Botânico. O aplicativo mostra um valor absurdo. É o maldito preço dinâmico, se conforma Billy. Duas vezes? Três vezes? Como saber, o espertalhão não avisa mais. E o Uber black? Dá um preço próximo ao do X. O que fazer? É capaz dessa equação mudar até o carro chegar. São muitas contas, demais, sou de humanas, pensa atordoado

E se eu for no, com perdão da palavra, meu carro? A reunião é perto do baixo Leblon mas é mais fácil ganhar na megasena do que achar vaga naquele lugar. Tem um estacionamento ali na Dias Ferreira, aquele do Caetano, mas estacionamento no Leblon é coisa pra banqueiro, não para designer, mesmo o designer sendo eu, Billy Castro.

O taxi 99 com desconto de 30%. Salvação! Opa, não tem nenhum por perto. Estranho, sempre que o Uber entra em preço dinâmico o 99 com desconto desaparece. Alguém tem que investigar isso. Vou falar com meus amigos jornalistas. O problema é que sempre que ligo me pedem dinheiro emprestado. Melhor deixar pra lá.

Cabify. Esse sim resolve! Novo, moderno. Vamos ver…tem um! Que está em….Madureira. Chega em duas horas e meia. Hummm… acho que o pessoal da reunião não vai achar isso muito engraçado. Tem a bicicleta elétrica mas a minha está com a bateria descarregada. Teria que ir pedalando…o suor vai estragar meu visual do Brooklyn. Nem pensar.

Billy tem um acesso de fúria: Maldito país atrasado! Não tem transporte público! Terceiro mundo horroroso! Devia ter ficado em Berlim, em Londres!

Eis que ele vê um agrupamento de pessoas na rua.

O que elas estão fazendo ali? Será que também estão esperando baixar o dinâmico do Uber? Vou me juntar a eles, todo artista tem que ir onde o povo está.

De repente para um veículo que nunca havia visto antes. Parece uma mistura de caminhão com van. Será um Uber gigante? Como nunca reparei nisso? Preciso ver mais sites e revistas nacionais. Todas as pessoas entram. Já sei! É o Maxi Uber Pool! Li algo sobre isso em San Francisco, parece que estavam testando por lá. Ainda bem que sou antenado. Que rápido a novidade chegou neste balneário decadente. O mundo tá mudando.Não posso me atrasar, vou com a galera.

Escaldado pelo Uber X, Billy pergunta ao para o motorista se ele sabe o caminho ou precisa de ajuda. O sujeito olha desconfiado. Deve ser um daqueles motoristas novos, que estão dirigindo por conta da crise. Só por isso não vou tirar estrelas dele. Insolente. Nem imagina com quem está falando.

O Maxi Uber tem um motorista auxiliar, que faz a cobrança. O problema é que exigem pagamento na hora. Que coisa antiga. Tento o cartão de crédito e ele ri na minha cara. Outro insolente. Três estrelas pra esse, sem perdão. Sento junto com os outros passageiros do pool. Tem uns trinta ou quarenta, o Uber é realmente revolucionário, aumentaram o pool otimizando os custos. Gênios, vou anotar a idéia na minha Moleskine. Quero ver esses taxistas medievais detonarem esta idéia. O nome é que tem que mudar, a marca é “troncal”, é o que está escrito na frente. Péssimo branding.

Até que vamos rápido, ao menos o motorista não se atola com o Waze. Já o ar condicionado é meio capenga e algumas pessoas estão em pé, o projeto precisa de ajustes. Chego rápido no Leblon.

Na reunião, para mostrar quem é vanguarda, digo que vim no novo tipo de Uber e explico a novidade para os caipiras. Escuto risinhos, certamente de inveja, não suportam a idéia de que estou sempre um passo a frente

Um diretor de arte metido à besta me recomenda o Uber Under, ainda mais moderno que o Maxi Pool, nem tem motorista. So cool! Diz em voz alta, tentando de maneira patética imitar meu grito de guerra. Conta que vai do Leblon à, com perdão da palavra, Barra em vinte minutos.

É o meio de transporte mais underground que existe, garante um fotógrafo. Mais risinhos. Por aqui pouca gente conhece, voce entra por uma passagem secreta que tem na praça Antero de Quental

E tem app? Pergunta Billy, já sando o seu poderoso iPhone 8

Tem, mas só para Android, respondem em coro

Maldito país atrasado! Grita Billy Castro

Os risinhos invejosos tomam conta da reunião.

O último natal

 

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– Papai, O Dudu e a Sofia, lá da escola, disseram que o Papai Noel não existe. É mentira, né? Me ajuda a procurar no Google?

E lá vou eu para o computador, tentar desmentir o Dudu e a Sofia. Por sorte sou prevenido e já tenho na memória um site de pós-verdades que prova cientificamente a existência do bom velhinho. Também corrobora o ET de Varginha e o Saci Pererê mas não precisamos entrar nessa parte, ao menos agora.

Este ano foi complicado para todos e foi difícil manter a fé do Martín no Papai Noel. A toda hora tenho que buscar alguma explicação para o inexplicável: como consegue levar todos os presentes num único trenó? E as cartinhas das crianças, ele lê sozinho? Todas elas? Quem é o dedo-duro que conta pra ele se me comportei bem ou mal?

Ao mesmo tempo em que duvida montou a árvore com todo zelo e cuidado, cheia de enfeites e luzinhas. Até pediu ajuda com a escada, para colocar uma estrela lá no alto. Também mandou várias cartas iguais para o Polo Norte, só para garantir, ele acredita no Papai Noel mas não nos Correios.

Neste momento está contando as horas que faltam para o natal

Como eu fiz quando tinha a idade dele, vai tentar ficar acordado a noite toda só para ver o Papai Noel entrando pela janela. Também vai pular da cama assim que abrir os olhos para ver o que deixou. Tem coisas que nunca mudam, quanto mais cedo a gente aceita, melhor.

Acho que este é o último natal em que ele acredita. Ano que vem Papai Noel já será um mico, derrota, coisa de pirralho. Quando for adolescente, como aconteceu comigo, vai começar a achar o bom velhinho um agente do capitalismo ou um funcionário decadente da Coca-Cola, até escondê-lo em algum canto da memória

Os natais da infância vão reaparecer em flashes ao longo da vida, iluminando os momentos escuros. A alegria da família reunida, a troca de presentes, os primos correndo pela casa cheia, a árvore com uma estrela lá no alto, voltarão por alguns instantes quando ele precisar de conforto.

E daqui a muito anos, quando o tempo for propício, uma criança vai trazer o Papai Noel de volta pro Martín e também pro Dudu e pra Sofia.

Como trouxe para mim.

Então este natal vai ser o do até logo pro bom velhinho.

Espero estar aqui quando ele voltar. O Martín já não vai precisar de mim para procurar algo no Google, mas quem sabe ainda consigo ajudar com a escada, para colocar aquela estrela de volta ao seu lugar.